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Mito, lenda, fábula e conto – herança psicológica da tradição oral

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Acima, edições brasileiras que aproximam as crianças na Primeira Infância de diferentes formas da tradição oral.

Tanto as mitologias quanto as lendas, fábulas e contos mostram as consequências diretas das ações de seus personagens. Elas existem para suprir necessidades humanas essenciais: explicar o inexplicável, transmitir valores morais, acolher emoções e moldar o caráter humano e a identidade cultural de um grupo. Sendo narrativas da tradição oral que viajam no tempo, esse repertório estabelece uma conexão direta entre o passado e o presente.
 

Metáforas simples, como o "voar alto demais", o "peso da espada" ou o "bolinho fugitivo", são imagens facilmente absorvidas pela mente infantil, conectando as crianças com gerações e mundos anteriores a elas. Por meio da fantasia, essas histórias criaram uma forma que ajudou a humanidade a compreender a vida e o mundo quando ainda não havia livros físicos, muito menos tecnologia digital.
 

Apesar disso, os conceitos de mito, lenda, fábula e conto ainda são frequentemente confundidos. Embora pertençam ao mesmo gênero literário (o narrativo), funcionam como subgêneros diferentes por possuírem características e funções estruturais específicas, como vemos a seguir.

Do vazio à criação de divindades: mitos

Na mitologia grega, a história de Ícaro e Dédalo narra a trajetória de pai e filho presos em um labirinto, que constroem asas de cera e penas para fugir. O pai adverte o filho para não voar perto demais do sol, mas o jovem Ícaro se empolga, a cera derrete e ele cai no mar. Criar asas e voar é uma ideia fascinante, que ensina de forma memorável a importância de ouvir os conselhos dos pais e

os perigos da imprudência.

Muito antes de nós, a humanidade já se questionava sobre o porquê das coisas. Foi assim que os mitos surgiram na Antiguidade: como uma tentativa de explicar fenômenos naturais (como a chuva e o sol) e dar sentido à vida. E por que essas narrativas resistiram ao tempo?

Segundo estudiosos, por três motivos principais:

  • Necessidade de resposta: Sem ferramentas científicas, os povos antigos usavam a personificação — atribuindo sentimentos humanos e poderes a divindades — para explicar o caos, a criação e a morte.
     

  • Tradição oral: Histórias sobre deuses, monstros e heróis eram transmitidas de geração em geração. Elas eram modificadas e adaptadas conforme os costumes e as migrações, cumprindo o papel de unir comunidades e justificar tradições.
     

  • Fusão cultural: Muitas narrativas absorveram elementos de civilizações vizinhas. A mitologia grega, por exemplo, foi fortemente influenciada por culturas da Mesopotâmia e do Antigo Oriente Próximo antes de se consolidar.

De onde nascem os mitos?

A ideia de que as mitologias se baseiam em acontecimentos e pessoas reais remonta ao século IV a.C., com o escritor grego Evêmero. Para ele, alguns deuses teriam sido, na verdade, reis, guerreiros ou líderes do passado. Hoje, essa visão — conhecida como Evemerismo — é estudada pela história e pela mitologia comparada.

"Quem conta um conto, aumenta um ponto", diz a sabedoria popular. Isso reforça a hipótese de que, se esses personagens existiram, seus feitos foram exagerados ao longo dos séculos até que eles fossem transformados em divindades. 

Muitos mitos também são tentativas de relatar desastres naturais reais que impactaram a humanidade. O mito do dilúvio, por exemplo, aparece em várias mitologias independentes — como a suméria (Epopeia de Gilgamesh), a grega (mito de Deucalião) e a maia (Popol Vuh) —, sendo interpretado hoje como o reflexo geológico do fim da última Era Glacial.

As narrativas míticas não são, portanto, classificadas como "mentiras". Elas representam verdades espirituais e psicológicas de um povo, que servem para ensinar, de maneira simbólica, leis de convivência e sobrevivência. O mais fascinante é que, mesmo sem contato direto entre si, povos distantes criaram mitos com significados muito parecidos. Desafia a nossa imaginação perceber que civilizações tão distantes — da Índia à Grécia, passando pela Escandinávia — geraram heróis e dilemas morais semelhantes.

Uma evidência de que, no fundo, a mente humana compartilha os mesmos medos, sonhos e lições, independentemente da época ou do lugar — uma herança psicológica comum que o psiquiatra Carl Jung chamou de inconsciente coletivo, composto por arquétipos (imagens e moldes).

 

Estas obras brasileiras são referências de mitologias para crianças:
 

  • Eré mi: mitologia africana para crianças (Kiusam de Oliveira): Apresenta de forma leve, poética e lúdica as divindades (orixás) do panteão africano. O livro destaca cores, elementos da natureza e mensagens de coragem e amor, sendo a escolha ideal para ler com bebês e crianças pequenas.
     

  • As serpentes que sustentam o mundo (Daniel Munduruku): Uma narrativa sensível e ricamente ilustrada que reconta o mito de criação do povo Munduruku. Com uma linguagem simples e visualmente encantadora, é muito recomendada para a contação de histórias e leitura compartilhada na Primeira Infância.
     

  • Contos florestais (Daniel Munduruku): Reúne mitos e histórias tradicionais do povo Munduruku. Com uma linguagem acessível e foco no respeito sagrado à natureza, conecta as crianças pequenas com a ancestralidade e os espíritos da floresta de forma lúdica.
     

  • Catando piolhos, contando histórias (Daniel Munduruku): Mostra o afeto e a tradição oral na prática dentro de uma aldeia. O autor resgata mitos ancestrais contados pelos mais velhos, ideal para pais e educadores lerem em voz alta, estimulando a imaginação e a escuta ativa nos primeiros anos de vida.

Das divindades aos heróis humanos: lendas

O Rei Arthur e a Espada na Pedra (lenda britânica mais influente da literatura ocidental): A história do jovem e humilde Arthur, que consegue puxar a espada mágica Excalibur de uma rocha quando nenhum dos guerreiros mais fortes foi capaz, provando ser o verdadeiro rei por direito. A narrativa empodera a criança ao mostrar que o valor de alguém não vem da força física ou do tamanho, mas sim da pureza de coração, da justiça ou do destino.

Diferentemente dos mitos, as lendas quase sempre partem de um acontecimento ou personagem real. Enquanto os mitos explicam a criação do cosmos através de deuses, a lenda se baseia em fatos históricos locais, aos quais a tradição oral adiciona elementos mágicos.
 

O nascimento e a estrutura dessas histórias fundamentam-se em quatro pilares:
 

  • Fundo de verdade: A trama envolve um herói real, uma batalha histórica ou um local geográfico específico. Com o tempo, a imaginação popular aumenta o mistério para tornar o relato mais impressionante.
     

  • Localização definida: Ao contrário dos mitos (que ocorrem em tempos sagrados e fora do mapa comum), as lendas citam vilas reais, castelos conhecidos ou florestas existentes.
     

  • Cultura popular e folclore: Não fazem parte de uma religião formal. Servem para manter viva a memória comunitária, alertar sobre perigos locais ou transmitir lições morais.
     

  • Versões modernas: Continuam surgindo ativamente. As "lendas urbanas" (como a 'Loira do Banheiro' ou o 'Chupacabras') nascem de boatos, espalham-se de boca em boca e ganham contornos assustadores.

A força e o encanto do manancial brasileiro

Embora o Brasil possua mitos indígenas complexos sobre a criação do mundo — como o sopro criador de Tupã ou a jornada cósmica de Nhanderuvuçu —, são as figuras do nosso folclore que geram o maior impacto visual e moral no público infantil. Esse manancial é único para as crianças porque, diferentemente dos mitos gregos, com frequência trágicos, as lendas focam na esperteza, no mistério e na conexão com o meio ambiente, sem recorrer a castigos cruéis.

Um dos maiores exemplos é o "Curupira – o Protetor da Natureza". A história narra a existência de um ser mágico com cabelos de fogo e os pés virados para trás, que vive na mata. Ele usa as pegadas invertidas para despistar caçadores. O visual do personagem ativa imediatamente a imaginação infantil: um 'monstro do bem' que foca na preservação ambiental e deixa uma lição valiosa, pois não ataca quem usa a floresta para sobreviver, apenas quem destrói por pura ganância.

Outro personagem marcante é o Saci-Pererê. Para crianças menores, a sua história é imbatível: um menino de uma perna só, que usa uma carapuça vermelha mágica e adora fazer pequenas travessuras domésticas (como queimar o feijão ou sumir com objetos). O Saci transforma pequenos acidentes do dia a dia em pura magia, representando o arquétipo do pregador de peças (o trickster). Ele ensina que o humor e a sagacidade são ferramentas poderosas para lidar com os imprevistos da vida.
 

Pais e educadores interessados em introduzir as crianças nesse universo encantado podem começar com estas lendas brasileiras bastante acessíveis:
 

  • Boto-cor-de-rosa

  • Iara, a encantadora senhora das águas

  • Uirapuru, o pássaro do amor

  • Vitória-régia, a estrela das águas

  • Barba-Ruiva

  • Curupira

  • Matinta Perera

  • Cobra Norato

  • Negrinho do Pastoreio

  • A Gralha-azul

  • Boitatá

  • O Lobisomem

  • As Mangas Jasmim de Itamaracá

  • Saci-Pererê

  • Anhangá

  • Chico Rei

  • Mula-sem-cabeça, entre outras conhecidas regionalmente.

Dos humanos aos animais antropomórficos: fábulas

 O Leão e o Ratinho (Esopo): Na clássica fábula, um ratinho acidentalmente acorda um leão, que decide poupar sua vida. Mais tarde, o leão é capturado por caçadores e fica preso em uma rede. O ratinho aparece e rói as cordas, libertando o felino. A criança se identifica fortemente com o ratinho, que é pequeno e fisicamente frágil perante os "gigantes" do mundo, e aprende que todos podem ajudar: o tamanho ou a idade não determinam a capacidade de alguém fazer a diferença.

Assim como os mitos explicam fenômenos por meio de deuses e as lendas misturam fatos históricos com elementos mágicos, as fábulas utilizam animais com comportamentos humanos para transmitir suas mensagens. São histórias curtas de ficção, com enredos bem estruturados e dinâmicos. Devido ao seu caráter educativo, ocupam um espaço central na pedagogia e na literatura infantojuvenil, servindo para a reflexão sobre vícios, virtudes e a própria natureza humana.

A fábula surgiu na Antiguidade Oriental, com registros encontrados em tábuas de argila na Mesopotâmia e em coletâneas de histórias na Índia (como o Panchatantra). De acordo com pesquisas históricas, eram contadas pelo povo como uma forma de resistência cultural e crítica social disfarçada.

Como os camponeses e escravos não podiam criticar abertamente reis, nobres ou tiranos, utilizavam os animais (como o leão, a raposa e o lobo) para representar os poderosos e ridicularizar defeitos como a arrogância, a ganância e a vaidade, sem sofrer punições.

Embora tenham nascido como sátiras políticas para adultos, sua linguagem simples e estrutura direta provaram ser instrumentos ideais para o desenvolvimento ético e cognitivo infantil. Seus mecanismos narrativos — o antropomorfismo e a lição de moral — influenciam diretamente as grandes produções de animação modernas (como os filmes da Disney, Pixar e DreamWorks) e as histórias em quadrinhos, confirmando que a necessidade humana de aprender através de metáforas continua viva e universal.

Principais características das fábulas:

  • Personagens antropomórficos: Animais que possuem características humanas, frequentemente representando um traço específico (a raposa representa a astúcia; a formiga, o trabalho; e o leão, a força).
     

  • Presença de moral: A característica mais marcante é o ensinamento no final da história (a "moral da história"), que traz uma reflexão ética ou de convivência.
     

  • Narrativa breve: São histórias curtas, com enredo simples e poucos personagens, focadas diretamente no conflito que gera o ensinamento.
     

  • Tradição e universalidade: Histórias transmitidas oralmente por gerações, originárias de autores da Antiguidade como Esopo e posteriormente compiladas por escritores como Jean de La Fontaine.

Histórias que ensinam com leveza

Fábulas com lições duras — como "A Cigarra e a Formiga", que valoriza o trabalho, mas deixa de lado a empatia — dividem psicólogos e educadores entre os benefícios cognitivos e as ressalvas emocionais que podem causar na mente infantil.
 

Para muitos profissionais, algumas delas podem validar comportamentos egoístas, gerar ansiedade ou fixar uma visão muito rígida do mundo se não forem bem discutidas. Na verdade, o impacto real depende da mediação: os adultos podem transformar um desfecho punitivo em um diálogo saudável sobre o equilíbrio entre dever e lazer.

Abaixo, sugestão de narrativas que geram reações emocionais seguras:

  • A Tartaruga e a Lebre: A lebre desafia a tartaruga para uma corrida, certa da vitória. Por excesso de confiança, resolve tirar uma soneca. Focada e persistente, a tartaruga caminha no seu próprio ritmo, sem parar, e vence. Embora a lebre perca por pura arrogância, ela não sofre nenhuma punição trágica ou violenta. O foco total está na perseverança, no esforço e na superação pessoal.
     

  • A Assembleia dos Ratos (Esopo / La Fontaine): Os ratos se reúnem para encontrar uma solução contra o gato que os caça e decidem que colocar um guizo (sino) no pescoço do felino resolveria o problema. A ideia é aplaudida por todos até que um rato velho pergunta: "Quem vai amarrar o guizo?". Apesar de mostrar um medo real, a história termina de forma leve e reflexiva. Desperta o bom senso, ensinando que propor soluções fáceis é simples, mas executá-las é o verdadeiro desafio.
     

  • O Vento e o Sol (Esopo): O vento e o sol disputam para ver quem é o mais forte e decidem que o vencedor será quem fizer um viajante tirar o casaco. O vento sopra com extrema violência, mas o homem apenas se aperta mais na roupa. O sol, então, brilha com calma, calor e suavidade; o homem sente o clima agradável e tira o casaco voluntariamente. É uma metáfora sobre o poder da gentileza e da persuasão contra a força bruta. Ninguém sai machucado; o ensinamento exalta o afeto.
     

  • Histórias Africanas para Contar e Recontar (Rogério Andrade Barbosa): Escrito por um dos maiores especialistas brasileiros em resgatar a tradição oral do continente. O livro traz fábulas curtas e divertidas que explicam o comportamento dos animais selvagens segundo diferentes culturas africanas, perfeito para a contação de histórias na Primeira Infância.

O encanto do ritmo e da esperteza: contos

O Caso do Bolinho (Conto de Acumulação): A divertida jornada de um bolinho de pão que ganha vida, rola pela janela e foge de um avô, de uma avó, de uma lebre e de um lobo, cantando uma música alegre e repetitiva que engana a todos pelo caminho, até encontrar uma astuta raposa. A narrativa encanta os bebês e crianças bem pequenas pela sonoridade e pelo ritmo previsível da fuga, transformando a leitura em uma brincadeira musical e reconfortante onde os pequenos conseguem adivinhar o próximo passo da história.

Enquanto os tradicionais contos de fadas — detalhados separadamente na seção "Livros" — lidam com arquétipos, outros contos igualmente poderosos, como os de acumulação (ou repetição) e os contos populares de artimanha, operam por caminhos diferentes. Nesses formatos, a fantasia não surge na forma de reinos distantes ou deuses poderosos, mas sim através do humor, do absurdo e de animais que agem como humanos, criando um terreno seguro, leve e divertido para a imaginação infantil.
 

Em contraposição às fábulas tradicionais, que exigem uma lição moral rígida no desfecho, esses contos priorizam a jornada, o encantamento e a brincadeira com as palavras. Para bebês e crianças bem pequenas, dois subgêneros destacam-se como ferramentas pedagógicas e emocionais: os contos de acumulação e os contos de artimanha.

 

Principais características dos contos:
 

  • Histórias sem sermão: Ao contrário das fábulas, o foco não é ditar uma regra de comportamento rígida, mas sim celebrar a astúcia, o humor e o desfecho feliz.
     

  • O ritmo que ajuda a falar: A estrutura repetitiva funciona como um apoio para a memória. A criança decora o ritmo, prevê o que vai acontecer e participa ativamente da leitura.
     

  • O pequeno vence o grande: Valorizam heróis frágeis (como bichos pequenos) que superam adversários mais fortes usando apenas a inteligência, o que ajuda a criança a se sentir capaz no mundo dos adultos.
     

  • O mundo onde tudo ganha vida: Conecta-se diretamente com a fase em que a criança projeta sentimentos em animais e objetos, tornando o absurdo da fantasia algo natural e acolhedor.

Explorando os subgêneros na prática

Na hora de escolher o que ler em casa ou na escola, pais e educadores podem explorar esses formatos divididos em duas grandes frentes:
 

  • Contos de acumulação (ou de repetição): São histórias em que os fatos ou personagens vão se somando e se repetindo ao longo do enredo — como quando um animal chama outro, que chama mais um, para resolver um problema. São excelentes formatos para bebês e crianças de até 3 anos. A estrutura repetitiva gera previsibilidade, permitindo que os pequenos decorem o ritmo rapidamente, tentem "adivinhar" o que vem a seguir e participem ativamente da narrativa. Isso desenvolve a linguagem e a memória de forma acelerada.

    Exemplos recomendados:

    O caso do bolinho (Tatiana Belinky) e o conto tradicional O grande rabanete (da mesma autora), no qual um vovô planta um rabanete que cresce tanto que ele precisa de ajuda para arrancá-lo. A história segue um ritmo acumulativo, onde vovó, neta, cachorro, gato e rato se juntam, formando uma corrente para puxar o vegetal. Com a união de todos, o rabanete é finalmente arrancado, e o rato se considera o mais forte, terminando com todos compartilhando o alimento de forma divertida.
     

  • Contos populares (ou de artimanha): Histórias da tradição oral focadas em personagens astutos, engraçados ou heróis populares que usam a inteligência para vencer desafios ou escapar de perigos, sem recorrer à violência. Na Primeira Infância, essas narrativas celebram a criatividade e o humor, mostrando às crianças que a sagacidade e o pensamento lúdico podem resolver problemas que parecem grandes demais para o seu tamanho.

    Exemplos recomendados:
     

Histórias de Pedro Malasartes, a exemplo de "A Sopa de Pedra": O esperto Malasartes aceita o desafio de conseguir comida de uma senhora conhecida por ser extremamente pão-dura. Ele vai até a frente da casa dela, acende uma fogueira e coloca um caldeirão com água e uma pedra limpa para ferver. Curiosa, a mulher pergunta o que ele está fazendo, e Pedro responde que está cozinhando uma deliciosa 'sopa de pedra', mas que ela ficaria ainda melhor com uma pitada de sal, um pedaço de carne e alguns legumes. Fisgada pela curiosidade, a mulher vai trazendo ingrediente por ingrediente. Ao final, a sopa fica maravilhosa, os dois comem juntos e Pedro prova que a inteligência e o bom humor conseguem desarmar até o mais rígido dos egoísmos.

 

Contos indígenas de bichos astutos, a exemplo de "A Corrida entre o Jabuti e o Veado": Cansado das zombarias do veloz veado, o vagaroso jabuti o desafia para uma corrida na floresta. Sabendo que não venceria pela força física, o jabuti combina um plano com seus parentes: ele espalha vários jabutis idênticos ao longo do caminho, escondidos nas moitas. Cada vez que o veado corre, para e grita: "Onde você está, jabuti?", um jabuti diferente responde mais à frente: "Estou aqui, na sua frente!". Exausto de tanto correr contra um adversário que parecia incansável, o veado desiste. O conto mostra às crianças pequenas que a união e a sabedoria valem muito mais do que a pressa e a arrogância.

O Olhar para a Infância nas Narrativas

 

 Da força à doçura, as antigas mitologias e tradições sempre reservaram um papel sagrado, lúdico e inspirador para a figura da criança:
 

🏛️ Mitologia Grega: Os deuses bebês já mostravam seus dons ao nascer. Hermes, em seu primeiro dia de vida, fugiu do berço, roubou o gado de Apolo e inventou a lira usando um casco de tartaruga; o pequeno Zeus foi protegido em uma caverna secreta para não ser devorado por Cronos, seu pai, e acabou amamentado pela cabra Amalteia; já Dionísio, para fugir da fúria de Hera, foi criado disfarçado de menina e protegido por ninfas da floresta.

❄️ Mitologia Nórdica: Destaca o crescimento rápido e a coragem dos pequenos. Magni, o filho de Thor com apenas três dias de vida, usou sua força para levantar a perna do gigante Hrungnir e libertar seu pai, que estava preso embaixo dele; já Vali foi gerado com o propósito específico de vingar a morte de Balder, crescendo em apenas um dia para cumprir sua missão.

☀️ Mitologia Egípcia: O conceito de infância estava profundamente ligado à proteção e ao renascimento. Hórus Menino era representado com o dedo na boca e uma mecha de cabelo lateral, simbolizando a pureza do sol nascente que precisa de cuidado materno. Na mesma cultura, Ihy era o deus-criança da música e da alegria, retratado como um menino feliz brincando com um instrumento sagrado chamado sistro.

🪷 Mitologia Hindu: As histórias infantis no hinduísmo são cheias de travessuras e revelações cósmicas. O pequeno Krishna era conhecido por roubar manteiga das vizinhas e, em uma famosa passagem, ao abrir a boca para a mãe, revelou todo o universo brilhando dentro de si; já Ganesha, criado por Parvati para proteger seus aposentos, demonstrou extrema lealdade à mãe ainda menino, enfrentando o próprio Shiva antes de ganhar sua icônica cabeça de elefante.

​🌍 Tradição Africana: Traz narrativas ricas centradas nos mistérios do nascimento e da ancestralidade. Na mitologia iorubá, Àbíkú é o conceito espiritual das crianças que passam por ciclos de nascimento e morte rápida; na tradição dos orixás, os Erês são espíritos infantis associados à alegria, pureza e renovação, atuando como intermediários entre os humanos e as divindades; por fim, os Griots são os guardiões e contadores de histórias que transmitem lendas diretamente às crianças para ensinar valores, respeito à natureza e moldar a identidade dos pequenos.

 

Pequenas pérolas da sabedoria popular:
 

  Anansi, a Aranha Esperta (Gana): Conto popular sobre uma aranhinha que usa a sagacidade para vencer animais muito maiores, como 
 leões e leopardos, mostrando que a inteligência vale mais que a força física.
 

  O Conto do Ubuntu (África do Sul): Narrativa na qual as crianças dão as mãos para correr e vencer juntas uma corrida, ensinando que a     
  felicidade só é real quando compartilhada em comunidade.
 

  O Casamento da Tartaruga (Nigéria): A fábula narra que, por ser vaidosa e gananciosa durante uma festa no céu, a tartaruga acabou caindo
  e quebrando seu casco — o que explica, de forma mágica, o motivo de o casco das tartarugas ser todo remendado hoje em dia.

Apesar das diferenças estruturais entre mitos, lendas, fábulas e contos, todos pertencem ao grande patrimônio da tradição oral e ajudam as crianças a compreender o mundo por meio da imaginação, do simbolismo e da emoção. Mais do que “histórias da carochinha”, essas narrativas preservam uma herança cultural e psicológica comum à humanidade, transmitindo valores, despertando a criatividade e fortalecendo vínculos entre pessoas de todas as idades.

Edições brasileiras do gênero

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ISBN-13: ‎978-1734201420

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ISBN-13: ‎978-6559311446

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ISBN-13: ‎978-8571222137

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Edilene Florentino Jäger

Jornalista e educadora, com especialização no desenvolvimento infantil de zero a três anos de idade. Desde 2006 integrando equipes pedagógicas de instituições de educação infantil, na Alemanha.

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