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Livro para colorir – apoio à expansão dos movimentos e à criatividade

Mal começa a andar, a criança apodera-se do lápis. Qualquer objeto parecido lhe basta, pois ela se contenta com um jogo de imitação. Mas, ao longo do segundo ano, a criança empunha e utiliza, para valer, o lápis ou a caneta hidrográfica e constata, com satisfação, que seu gesto deixa uma marca.
 

Apesar da pouca assiduidade de seu esforço gráfico, observa-se que o rabisco se transforma e adquire firmeza, seja em uma varredura impulsiva, em um vaivém nervoso, seja em formas circulares que se enrolam em grandes espirais, antes de se tornarem “círculos” propriamente ditos.


(Philippe Greig, A Criança e Seu Desenho, Artmed, 2004)

Do gesto ao traçado

No início, desenhar é puro movimento. A criança ainda não tem a intenção de representar algo — o que a encanta é o próprio ato de riscar. Seu olhar nem sempre acompanha o traço; muitas vezes, dirige-se a outro ponto do ambiente.
 

Por volta dos 18 meses, algo começa a se transformar: os olhos passam a acompanhar o movimento da mão, ainda que sem controlá-lo plenamente. Aos 2 anos, inicia-se o controle visual do traçado. Surge, primeiro, um controle mais simples, ligado ao ponto de partida, que permite acrescentar um novo traço a outro já existente — um avanço significativo na organização do espaço gráfico.
 

Pouco a pouco, olhar, mão e dedos passam a atuar de maneira mais integrada. Desenvolve-se, então, um controle mais completo do movimento: a criança começa a antecipar onde o traço se inicia e onde termina. Por volta dos 3 anos, essa integração torna possível a realização do círculo fechado.
 

Nessa fase, a criança passa a usar o pronome “eu”, percebendo-se como um indivíduo distinto da mãe e deixando de se ver como uma extensão dela. Agora, com maior domínio da linguagem oral, expressa-se também com mais intenção no papel. O desenho deixa de ser apenas gesto e aproxima-se, pouco a pouco, da representação.

Das garatujas ao preenchimento intencional

Evoluindo das garatujas — nome dado às expressões visuais da fase inicial do grafismo infantil — para tentativas mais intencionais de preencher formas, as crianças começam a colorir e a procurar seguir contornos de desenhos previamente apresentados.
 

À medida que refinam a coordenação motora fina, ganham maior controle do lápis — segurando-o com três dedos — e conseguem preencher formas dentro dos limites com mais constância, geralmente entre os 3 e 4 anos.

Oferecer papéis em branco às crianças é proporcionar-lhes liberdade para momentos lúdicos e de criação, permitindo que se expressem artisticamente. Ao unir a fascinação pela cor à necessidade de expandir seus movimentos e liberar emoções, a criança dá forma à sua linguagem plástica: “ora busca calma, equilíbrio e pureza; ora maneja as cores como ‘cartuchos de dinamite’”, nas palavras de Philippe Greig.

Ilustrações lineares como recurso complementar

Os livros infantis para colorir funcionam como apoio nesse processo. Embora alguns educadores façam ressalvas ao uso exclusivo de matrizes padronizadas — especialmente quando substituem a criação livre — e à presença de modelos já pintados como opções a serem seguidas, essas ilustrações lineares podem favorecer momentos de atenção plena, foco e relaxamento.
 

Contribuem ainda para a compreensão dos limites espaciais do desenho, oferecem oportunidades de explorar cores e constituem uma alternativa saudável ao uso excessivo de telas.
 

Muitos desses livros incluem jogos visuais ou charadas, que estimulam a atenção, a observação e o raciocínio, ampliando sua função. Por tudo isso, são recomendados como atividades complementares, sem substituir a leitura — que desempenha papel fundamental no desenvolvimento da linguagem e da imaginação — nem as produções originais realizadas em um caderno de desenho ou em papel branco comum, liso e poroso, com boa aderência à tinta.
 

Os desenhos ou “artes” produzidos podem, posteriormente, ser encadernados, transformando-se em pequenos livros autorais. Também podem ganhar molduras e enfeitar paredes — ou, mesmo sem molduras, ter vida longa suspensos em murais, portas de armários ou na porta da geladeira. Para a criança, isso representa um reconhecimento de seu esforço e cria espaços privilegiados para contemplar suas próprias produções.

Mandalas atenção, concentração e equilíbrio

Uma das opções clássicas no universo dos livros para colorir são os livros de mandalas. Nas instituições de educação infantil na Alemanha, é bastante comum que uma pasta com modelos seja disponibilizada às crianças para que escolham uma cópia para pintar, ou que a equipe pedagógica organize atividades específicas sobre o tema.
 

Colorir mandalas é mais do que apenas uma atividade recreativa. Pintar padrões, muitas vezes complexos, exige atenção e concentração — semelhante àquela que pode ser desenvolvida durante a meditação, como relata a americana Madonna Gauding em seu livro World Mandalas: 100 New Designs for Coloring and Meditation (edição alemã: Mandala aus Aller Welt, Bassermann Verlag, 2007).

ISBN-13: ‎ 978-3809421443

Isso porque a mandala é um círculo sagrado, um símbolo de totalidade. A palavra vem do sânscrito e significa algo como “círculo”, “centro sagrado” ou “recipiente do essencial”. Embora suas origens estejam na antiga Índia, esse símbolo aparece em diferentes culturas e épocas, estando associado à geometria sagrada, à psicologia e às artes de cura. Geralmente, as mandalas são redondas, organizadas de forma simétrica e conduzem naturalmente o olhar para o centro.
 

Essa atenção leva, de forma natural, à suspensão temporária do fluxo involuntário de pensamentos, criando uma pausa mental. Nesse momento, o ilustrador pode tornar-se mais consciente de seus próprios padrões mentais. Sentimentos como raiva, medo e insegurança podem emergir. Trazer à consciência esse conteúdo, por vezes reprimido ou esquecido, ajuda a elaborá-lo e contribui para uma vida mais íntegra. No caso das crianças, a atenção delas se volta inteiramente para a atividade de colorir, e tudo o mais tende a ser deixado de lado.
 

Além de proporcionar uma experiência de ordem, equilíbrio e organização interna por meio da simetria e do centro das mandalas, outros aspectos importantes são destacados:

  • Colorir dentro de limites circulares e padrões detalhados ajuda a controlar o traço, aprimorar a precisão e preparar para a escrita (desdobramento da coordenação motora fina).

  • A repetição de formas e o foco visual favorecem a redução da agitação, auxiliando crianças ansiosas ou muito ativas a se acalmarem (autorregulação emocional).

  • As escolhas de cores e a forma como a criança ocupa o espaço podem revelar estados emocionais, preferências e conflitos — especialmente quando acompanhadas de escuta sensível (expressão simbólica).

Livro de atividades — o livre brincar vs a escolarização precoce 

Enquanto a Alemanha prioriza uma abordagem predominantemente voltada para o livre brincar e o uso de folhas soltas nos jardins de infância, em atividades focadas na pré-alfabetização, o Brasil tem uma forte cultura de escolarização precoce, com sistemas apostilados ou livros de atividades estruturados. Cada vez mais creches e entidades particulares ou das redes públicas de ensino os adotam. O próprio Ministério da Educação do Brasil implementou o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), que distribui obras didáticas voltadas para a educação infantil. Embora as diretrizes oficiais priorizem as interações e as brincadeiras, o mercado de materiais impressos para essa faixa etária é massivo e amplamente aceito nas escolas.

De acordo com a legislação brasileira, a matrícula na pré-escola é obrigatória para crianças a partir dos 4 anos de idade — elas devem completar 4 anos até o dia 31 de março do ano em que ocorrer a matrícula. Quem faz aniversário depois dessa data só tem a matrícula obrigatória no ano seguinte. No entanto, as crianças costumam entrar em contato com livros de atividades e jogos muito antes. Esses materiais são integrados tanto na rotina familiar quanto na das instituições (creches e jardins de infância).
 

Na Alemanha, a frequência de crianças na primeira infância em instituições de ensino não é obrigatória. Conforme a legislação, elas ingressam no sistema escolar geralmente aos 6 anos de idade — a data limite para completar essa idade varia por estado, situando-se geralmente entre 30 de junho e 30 de setembro do ano letivo vigente. Quem faz aniversário após a data de corte local só inicia o ensino obrigatório no ano seguinte. Com isso, muitas crianças frequentam o jardim de infância até os 7 anos de idade. 

 

Mesmo assim, os professores da escola básica (Grundschule) trabalham em regime de cooperação, visitando periodicamente os futuros alunos ainda no jardim de infância. Nesses encontros, o relacionamento entre educadores, crianças e famílias é fortalecido, garantindo uma transição mais suave e sem a pressão de uma alfabetização prematura.

Categorias e nichos do mercado editorial

Em contrapartida ao modelo alemão, a forte presença desses materiais no cotidiano das crianças brasileiras gera intensos debates sobre os seus reais benefícios pedagógicos. Há uma divisão clara na pedagogia nacional em relação a essa prática. A perspectiva tradicional, fortemente respaldada pelo mercado editorial, defende que os livros de atividades ajudam a desenvolver a coordenação motora fina, a prontidão para a alfabetização e o raciocínio lógico desde cedo.
 

Por outro lado, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foca em "Direitos de Aprendizagem" baseados em brincar, conviver, explorar e expressar. Assim, muitos educadores criticam o uso precoce de apostilas, argumentando que tarefas prontas engessam a criatividade e que a criança nessa idade deveria aprender experimentando o mundo concreto, e não sentada preenchendo papel. Essa divergência reflete-se diretamente na forma como o mercado editorial categoriza e direciona suas publicações:
 

  • Livros de colorir com atividades: Focados principalmente em desenhos para pintar, trazem pequenos jogos e passatempos espalhados pelas páginas de maneira mais descompromissada.
     

  • Livros de "passatempo": São vistos pelos pais como ferramentas de entretenimento educativo e analógico para o dia a dia, restaurantes e viagens. Amplamente vendidos fora das livrarias tradicionais, são facilmente encontrados em bancas de jornal, supermercados e lojas de departamento a preços muito acessíveis, estimulando o consumo doméstico. Embora o formato seja lúdico, as tarefas (como labirintos, ligue os pontos, pareamento de formas e contagem) são criadas para estimular habilidades específicas, como a coordenação motora fina e o raciocínio lógico.
     

  • Livros pré-escolares (4 a 6 anos): Aqui entram os "livros de atividades" propriamente ditos, focados em pré-alfabetização e controle motor. Os desafios clássicos envolvem ligar pontos curtos (com números de 1 a 10 ou vogais), labirintos simples com linhas largas, tracejados para guiar o movimento da escrita, além de colagem de adesivos para ambientação de cenários.

A necessidade de repensar essa abordagem

Quando analisamos o mercado editorial infantil, percebemos que o formato e a estrutura do livro "para colorir", ou mesmo do livro "de atividades", não são neutros. Enquanto em países com maior Índice de Desenvolvimento Humano, como os escandinavos e alguns europeus, as propostas pré-escolares quase não existem de forma isolada — integrando-se organicamente a brincadeiras livres, folhas avulsas, minilivros ou brinquedos com foco educativo para fomentar o conhecimento —, no Brasil, esses materiais tornaram-se uma resposta comercial à forte pressão por escolarização.
 

Oferecer um livro de colorir ou de atividades como entretenimento em consultórios, restaurantes ou viagens é perfeitamente válido e saudável para ocupar o tempo, educando. O risco reside em transformar o preenchimento dessas páginas em uma métrica de sucesso ou de inteligência para crianças tão pequenas.
 

O papel aceita tudo, mas o desenvolvimento saudável na Primeira Infância exige o concreto: movimento corporal, interações afetivas e criatividade sem linhas delimitadoras. Nosso papel, como pais e educadores conscientes, é garantir que o lápis de cor seja um instrumento de pura expressão lúdica, e não uma ferramenta de cobrança prematura.

Edições brasileiras do gênero

(Exemplos de materiais amplamente encontrados no mercado brasileiro: desde o apelo comercial de marcas de brinquedos e entretenimento até opções focadas em padrões geométricos, como as mandalas.)

ISBN-13: ‎978-6555005905

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ISBN-13‏: ‎978-6598404871

ISBN-13: ‎978-8537640852

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Edilene Florentino Jäger

Jornalista e educadora, com especialização no desenvolvimento infantil de zero a três anos de idade. Desde 2006 integrando equipes pedagógicas de instituições de educação infantil, na Alemanha.

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