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O Machado e a Árvore: como a leitura cria raízes e asas na infância

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Da vivência na natureza ao aprendizado ao ar livre: o processo vital da transformação.

Para o escritor Franz Kafka, "um livro deve ser o machado para o mar congelado dentro de nós" — um forte aceno à leitura como ferramenta de autodescoberta e choque de consciência. Embora a origem biológica do ser humano esteja na natureza, a leitura lhe permite ir além dela, funcionando como uma extensão dos mecanismos de adaptação.
 

Uma criança que brinca no jardim aprende a conhecer o mundo físico e suas leis naturais. Já a criança que ouve histórias ou “lê debaixo de uma árvore” (expressão aqui entendida como a proteção e o acolhimento de outro ser vivo) colhe o conhecimento acumulado de quem veio antes dela, gerando uma transformação interna. Ambas as experiências garantem que ela cresça com os pés firmes no chão (raízes) e a mente livre para voar (asas).
 

A leitura é fundamental na primeira infância por:
 

  • Codificar a experiência humana: A evolução nos proveu de mecanismos instintivos para a sobrevivência. A leitura, por sua vez, enriquece o mecanismo que acumula a memória cultural de uma coletividade.
     

  • Expandir a alteridade: Ler é um exercício que ativa áreas cerebrais ligadas à simulação de experiências. Essa atividade fomenta a mente infantil para conhecer emoções, sentimentos e situações que ela ainda não viveu — e que talvez nunca venha a experimentar presencialmente. 
     

  • Desenvolver o pensamento crítico: Diferentemente das mídias audiovisuais, que frequentemente favorecem a passividade, a leitura exige um espaço ativo de interpretação e construção de sentido, diminuindo a possibilidade de manipulação.

A escrita que corre na seiva: a história oculta dos livros

A própria história da escrita conecta-se diretamente à forma como a mente infantil se desenvolve: de maneira orgânica e enraizada na natureza. Muitos desconhecem que a utilização da camada interna entre a casca exterior e a madeira do tronco — cientificamente chamada de floema (ou líber em contextos históricos) — foi um importante suporte para registros escritos desde o primeiro milênio a.C.

Fontes históricas indicam que não havia uma única árvore sagrada, mas espécies específicas que variavam conforme a região. Desde pelo menos o século IV a.C., na Índia e na região da Caxemira, eruditos e monges escreviam textos sagrados em sânscrito e manuscritos budistas em folhas raspadas e secas de bétula. Em sânscrito antigo, o nome dessa árvore (Bhurja) significa literalmente "árvore cuja casca é usada para escrever".
 

Na Europa, a faia e a tília eram as grandes guardiãs das palavras. Elas eram utilizadas pelos antigos romanos e pelas tribos germânicas muito antes da popularização do papiro e do pergaminho. O historiador romano Plínio, o Velho, relatou que povos antigos produziam superfícies de escrita costurando tiras de líber retiradas dessas árvores.
 

Essa relação é tão profunda que moldou a nossa própria linguagem. A palavra "livro" vem do latim liber, que significava originalmente a entrecasca da árvore. Da mesma forma, a palavra inglesa book e a alemã Buch derivam de beech (a faia), pois essas populações talhavam suas primeiras runas (inscrições) diretamente em suas cascas.

 

Essa evolução também floresceu em outros cantos do mundo. A partir do século V d.C., as civilizações Maia e Asteca extraíam o líber da figueira selvagem. Ele era fervido, batido com pedras e transformado em longas tiras de um papel vegetal resistente chamado amatl, onde pintavam seus famosos códices astronômicos e religiosos. Pouco antes, na China do século II d.C., artesãos já amassavam as fibras da amoreira-do-papel, misturando-as com água e restos de tecido — processo que serviu de base para a invenção do papel moderno por Cai Lun, em 105 d.C.

A árvore como brinquedo: o corpo em movimento

Esse trabalho adulto milenar encontra um paralelo perfeito nas brincadeiras infantis. Subir em uma árvore exige força, equilíbrio e cálculo de risco. Um galho firme vira um balanço; o topo da copa vira um castelo. A árvore é um dos primeiros brinquedos oferecidos pela própria natureza e, em situações de risco controlado, contribui para a construção da autoconfiança da criança.
 

Sem o uso de palavras, várias lições são transmitidas nessa convivência, como:
 

  • Paciência: Uma semente não vira sombra no dia seguinte. O crescimento é lento e constante. As árvores crescem no seu próprio ritmo, aprofundam raízes para enfrentar tempestades e renovam-se a cada ciclo, mostrando a importância de manter a firmeza interior. 
     

  • Resiliência: A capacidade de se recuperar, rebrotando mesmo com o tronco ferido. As árvores adaptam-se para sobreviver em ambientes em constante mudança: as folhas caem no outono, mas a vida sempre volta na primavera.
     

  • Diversidade: Uma única árvore abriga pássaros, insetos e fungos, ensinando o sentido de comunidade e mostrando que tudo o que é vivo precisa de tempo para criar laços antes de dar frutos.
     

  • Transmutação: A árvore absorve gás carbônico, libera oxigênio e converte a energia solar em matéria viva por meio da fotossíntese, ensinando sobre transformação e renovação. 

O livro como horizonte: o florescer da alma

A depender dos critérios adotados para definir a literatura infantil, o marco histórico inicial foi Orbis Sensualium Pictus (O Mundo Visível em Imagens), obra publicada em 1658 pelo educador tcheco Jan Amos Comenius. 

Ela tinha um propósito mais educativo e didático do que literário; entretanto, revolucionou a história ao ser a primeira enciclopédia ilustrada criada exclusivamente para crianças, combinando textos e imagens para ensinar sobre a natureza e a sociedade.​​​​​​

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​Antes de surgirem os impressos voltados a elas, as crianças consumiam histórias da tradição oral. A transição definitiva para o papel ocorreu com a consolidação da categoria que hoje conhecemos como contos de fadas, um gênero rico em simbolismos. Esse movimento foi impulsionado por autores pioneiros como o francês Charles Perrault (1697), os Irmãos Grimm (1812), que mapearam o folclore alemão, e o dinamarquês Hans Christian Andersen (1835).

Das páginas tradicionais aos quadrinhos: a leitura em outras formas

Mas o que determina, afinal, o que seria um livro? A resposta envolve critérios de estrutura, formato e registro oficial: um livro é uma obra registrada em um suporte material ou digital e organizada em forma de volume.

  • Critério estrutural (tamanho): Para a UNESCO, para que um conjunto de páginas seja classificado como livro, ele deve ter mais de 49 páginas (além das capas). Obras menores são consideradas folhetos ou livretos.
     

  • Formato e suporte: O conceito se expandiu e hoje engloba mídias impressas, e-books (digitais) e audiobooks (em áudio).
     

  • Registro e catalogação: Embora não seja obrigatório para a existência de um livro, o ISBN facilita sua identificação comercial e bibliográfica, sendo amplamente utilizado por editoras e bibliotecas.
     

Dentro dessa estrutura legal, surge um debate interessante para pais e educadores: e as histórias em quadrinhos (HQs)?
 

Para fins fiscais e legais no Brasil (segundo a Lei do Livro nº 10.753/2003), gibis e HQs são considerados livros, usufruindo de imunidade de impostos e recebendo o registro ISBN. No contexto artístico e literário, porém, os quadrinhos ultrapassam a barreira da literatura tradicional, sendo reconhecidos como uma mídia autônoma: "a nona arte" ou narrativa sequencial.
 

Para a primeira infância, essa fusão é preciosa. Longe de serem um "subgênero", os quadrinhos são a ponte perfeita para a literacia visual. Eles ensinam a criança que ainda não domina a leitura alfabética a decodificar expressões faciais, cenários, linhas de movimento e intenções por meio das imagens.

Infância, natureza e leitura: entre broto, raiz e transmutação

Seja folheando um gibi, mergulhando nas páginas de um conto de fadas ou escalando um tronco robusto no quintal, o segredo do desenvolvimento infantil permanece o mesmo: às crianças é preciso garantir insumos para construírem suas próprias pontes entre o mundo natural e o mundo das ideias.
 

Desse modo, crescem como as árvores: com a firmeza de quem criou raízes na terra (fundamento), adquiriu liberdade para expandir seus galhos (autonomia e expressão) e a confiança de quem se projeta em direção ao céu, numa busca permanente por iluminação.
 

“O Machado e a Árvore”, no título deste artigo, é uma alusão à ⁠fábula de Esopo, o lendário grego contador de histórias. Nela, as árvores permitem, sem perceber, que o próprio instrumento de sua destruição seja construído a partir de uma delas. Aqui, a ideia é mostrar o outro lado da história: algo bem cultivado não é o machado que destrói, mas a ferramenta que desperta.
 

Conhecer a fábula é também um convite à reflexão para pais e educadores: aquilo que se oferece às crianças pode sensibilizar e mobilizar; mas, quando negligenciado, pode fragilizar justamente o que deveria ser cuidado para sustentar processos de transformação.


Curiosidades sobre a história dos livros

  • O livro impresso e datado mais antigo do mundo: O Sutra do Diamante (868 d.C.), produzido na China. Trata-se de um rolo de papel com cerca de 16 metros de comprimento. Sua folha de abertura — o equivalente ao que hoje chamamos de capa — apresenta uma ilustração do Buda produzida por meio de xilogravura (imagem entalhada em matriz de madeira e entintada). 
     

  • Primeiro livro impresso no Ocidente: A ⁠Bíblia de Gutenberg (c. 1455). Foi o primeiro grande volume produzido com tipos móveis de metal na Europa. Embora o texto tenha sido impresso mecanicamente, muitas cópias ganharam ornamentações e letras capitulares pintadas à mão posteriormente (as chamadas iluminuras) para preservar o padrão visual dos manuscritos medievais.
     

  • Primeiro livro ilustrado para crianças: Orbis Sensualium Pictus (O Mundo Visível em Imagens), publicado em 1658 pelo educador checo Jan Amos Comenius. Considerado um marco revolucionário na história da educação, o livro utilizava xilogravuras para ensinar às crianças os nomes de objetos, animais e atividades cotidianas. Sua primeira edição foi bilíngue (latim-alemão), facilitando sua rápida adoção nas escolas europeias. 
     

  • Primeiro livro infantil moderno voltado ao entretenimento: Se considerarmos uma obra feita exclusivamente para o lazer da criança, sem o tom puramente escolar ou religioso, o marco pioneiro é A Little Pretty Pocket-Book, publicado na Inglaterra por ⁠John Newbery em 1744. Newbery transformou o mercado ao defender que o aprendizado infantil deveria ser conduzido pelo prazer e pelo lúdico.
     

  • Primeiro livro de fotografias da história:  Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions (1843), criado de forma independente pela botânica inglesa ⁠Anna Atkins. Ela utilizou o processo de cianotipia (que gera imagens em tons de azul) para registrar algas diretamente nas páginas. No ano seguinte, em 1844, William Henry Fox Talbot lançaria The Pencil of Nature, considerado o primeiro livro de fotografia distribuído comercialmente. 

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Edilene Florentino Jäger

Jornalista e educadora, com especialização no desenvolvimento infantil de zero a três anos de idade. Desde 2006 integrando equipes pedagógicas de instituições de educação infantil, na Alemanha.

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