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Música – Muito além do brincar, a força da união nas cirandas e cantigas


Estar em círculo elimina hierarquias e convida à participação. Na roda, toda criança é vista e pertence.
O círculo não é apenas uma forma geométrica; ele carrega um simbolismo sobre relacionamento. Na visão teológica, representa a igualdade perante o Criador e entre as pessoas: sentar em círculo elimina hierarquias rígidas e convida à participação coletiva, atendendo à necessidade humana de pertencer e ser visto.
A forma também é associada à eternidade, por não ter início nem fim. Nesse sentido, ao se reunirem em roda, por exemplo em uma mesa redonda, os seres humanos buscariam, ainda que inconscientemente, uma conexão com a harmonia original. Muitas tradições religiosas utilizam os "Círculos Bíblicos" ou "Rodas de Oração", sob o argumento de que a espiritualidade se torna mais viva no 'olho no olho', um formato que alimenta o impulso de criar comunidade.
Essa mesma busca pela coletividade reflete-se na tradição folclórica. A referência em questão são as cantigas de roda, que têm raízes na cultura europeia — muitas provenientes de Portugal e Espanha — com relatos que as remontam à Idade Média. Ao chegarem ao Brasil, essas canções misturaram-se às tradições indígenas e africanas, resultando em letras simples e melodias transmitidas de geração em geração.
"Pela dificuldade de se imaginar uma brincadeira de roda sem o acompanhamento musical, os termos 'ciranda', 'brincadeira de roda' e 'cantigas de roda' fundem-se no senso comum. No entanto, há uma distinção: as cantigas de roda são as composições em si; já a ciranda e a brincadeira de roda — que são sinônimos — referem-se à dança circular propriamente dita, na qual os participantes giram de mãos dadas, transformando a música em movimento.
Além do contexto infantil, a ciranda é uma expressiva dança folclórica de adultos, tradicional no litoral do Nordeste. Exemplo emblemático é Lia de Itamaracá, reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco, que personifica a união entre o ritmo, o movimento e o espírito comunitário da roda.
O Sapo não lava o pé
Cantiga das mais conhecidas, “O sapo não lava o pé” costuma figurar entre as primeiras experiências das crianças com a roda. Um vídeo publicado na Internet mostra o pai tocando violão enquanto o filho toca tamborim. Juntos, cantam a música, dando vida ao personagem.
A letra apresenta um sapo que vive na lagoa, mas se recusa a lavar os pés, o que resulta em um cheiro desagradável, o chulé. Para pais e educadores, essa é uma oportunidade de introduzir conceitos fundamentais:
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Higiene e cuidado: uma conversa natural sobre o autocuidado.
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Convivência: o impacto de nossas ações no coletivo.
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Linguagem: as estrofes curtas e rimas favorecem a expressão verbal e não verbal (gestos, expressões faciais), estimulam a imaginação e a exploração de diferentes entonações de voz, com leveza e humor.
A cantiga trabalha ritmo e valores culturais de maneira acessível, permanecendo relevante ao longo das gerações.
Cifra e Letra
(Clave) Tom: G
[Intro] C G D7 G
C G D7 G
G
O sapo não lava o pé
D7
Não lava porque não quer
Ele mora lá na lagoa
G
Não lava o pé porque não quer
C G D7
Mas que chulé!
Variações vocálicas – exercício de consciência fonológica, que ajuda a criança a perceber os diferentes sons das vogais
G
A sapa não lava a pá
D7
Não lava porque não quer
Ela mora lá na lagoa
G
Não lava a pá porque não quer
C G
Mas que chulé!
G
E sepe ne leve e pe
D7
Ne leve perque ne que
Ele mere le ne legue
G
Ne leve e pe perque ne que
C G
Mes que chele!
(Confira a letra completa e variações no site: https://www.cifraclub.com.br/os-pequerruchos/o-sapo-nao-lava-o-pe/ )
Características e mediação
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As cantigas devem ser breves, com textos simples, melodia e ritmo fáceis;
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Devem incluir repetição e ativar gestos que produzam movimentos corporais completos. Gestos são, sobretudo, movimentos com mãos e braços, que se diferenciam em:
Uso do próprio corpo como instrumento: ações para produzir efeitos sonoros, como bater palmas, dar tapinhas nas coxas, estalar dedos ou fazer estalos com a língua, enquanto percussão corporal é compreendida como sequências ritmicamente complexas de sons produzidos em diferentes partes do corpo (peito, nádegas, abdômen, coxas etc.).
Gestos encenados: ajudam a explicar a letra da música, fazendo a conexão entre o centro motor (mãos) e o centro da linguagem no cérebro (como fazer cara de espanto, tapar o nariz para simbolizar o cheiro), o que auxilia na memorização. São muito úteis para crianças com dificuldades de fala.
Gestos corporais: não estão relacionados diretamente com a letra da música; envolvem movimentos livres e não produzem ruído, a exemplo de mexer o quadril, agachar-se, imitar um animal sem provocar ruído. Servem para aumentar o prazer da coordenação motora e dar suporte ao fluxo rítmico da canção.
💡 Dica pedagógica: Enquanto os gestos encenados reforçam compreensão da letra e narrativa, os gestos corporais trabalham ritmo, criatividade e percepção do próprio corpo. Alternar os dois tipos de gestos deixa a experiência musical mais rica e divertida para crianças e adultos.
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Ter segmentos de texto intercambiáveis.
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Quando a música contiver várias estrofes, estas podem ser mediadas por partes. Avançar pelas estrofes à medida que a criança se apropria das anteriores (internalizando uma por uma) evita sobrecarga e apoia a memorização.
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Utilizar versões da música (em CD ou outros formatos digitais) ajuda na fixação, mas elas deveriam ser apresentadas às crianças depois de as canções já serem conhecidas na prática.
O “politicamente correto” e as adaptações
Diversas cantigas de roda brasileiras são retratos sonoros do período colonial e imperial, funcionando como um elo direto com o cotidiano das mulheres escravizadas e a estrutura das casas-grandes. A figura do 'bicho-papão' ou da 'cuca' em Nana Neném servia como forma de as amas de leite expressarem seu cansaço ou a dureza de sua condição desigual. O medo instilado na criança era, por vezes, reflexo de um ambiente repressivo.
A alteração de letras busca remover conteúdos considerados violentos ou preconceituosos, como em:
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Atirei o Pau no Gato: a versão clássica é vista hoje como apologia aos maus-tratos de animais. A nova versão (“Não atire o pau no gato / Porque isso / Não se faz”) foca em cuidado e educação ambiental.
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Sambalelê: a letra original diz que o personagem “está doente / com a cabeça quebrada” e termina com “Sambalelê precisava / é de umas boas palmadas”. Hoje, a punição física em músicas infantis é evitada, e o foco muda para a dança ou para o restabececimento da doença.
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A Canoa Virou: muitas vezes adaptada para não sugerir que alguém “deixou virar” por negligência ou intenção, focando mais na brincadeira de roda em si.
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Escravos de Jó: faz referência direta à escravidão, embora o jogo de pedras seja uma rica herança cultural africana.
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O Cravo e a Rosa: criticada por retratar uma relação de briga e submissão, com a rosa “despetalada” e o cravo 'ferido'.
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Marcha Soldado: circula em versões orais no Brasil desde o período colonial e imperial, segundo historiadores, contrariando as argumentações de que teria nascido de contexto político específico moderno. Contudo, pode ser vista como uma normalização da lógica militar na brincadeira infantil.
Há duas correntes principais com pontos de vista divergentes: a pedagógica defende que o repertório infantil deve ser lúdico e transmitir valores atuais de respeito e paz; já a histórica/cultural argumenta que alterar as letras apaga a memória e a origem dessas canções, sugerindo que elas sejam ensinadas com o devido contexto, em vez de apenas modificadas.
Outras canções do repertório infantil:
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Ciranda, cirandinha
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Tororó
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Alecrim dourado
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Se essa rua fosse minha
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Peixe vivo
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A barata diz que tem
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A galinha do vizinho
Cirandas no mundo
Em diferentes culturas, crianças cantam, rodam e brincam — mudam as línguas, mas a experiência de cantar em grupo e se movimentar em roda aparece de forma muito semelhante.
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Ring a Ring o’ Roses (Inglaterra)
Trecho: Ring-a-ring o’ roses, / A pocket full of posies, / A-tishoo! A-tishoo! / We all fall down!
Cantiga de roda tradicional inglesa. Sua origem é frequentemente associada à Grande Peste de Londres, por suposta relação com sintomas da doença. No entanto, essa interpretação surgiu apenas no século XX. Fontes mais antigas indicam que não há ligação direta com o acontecimento. No modo de brincar, as crianças dão as mãos e formam um círculo enquanto cantam, acompanhando a música com movimentos simples e coordenados. Ao final, todas caem, se abaixam ou fazem um gesto combinado, reforçando a ideia de jogo coletivo.
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Frère Jacques (França)
Trecho: Frère Jacques, Frère Jacques, / Dormez-vous? Dormez-vous? / Sonnez les matines,/ Sonnez les matines,
Ding, ding, dong/ ding, ding, dong
Frère Jacques é uma das canções infantis mais conhecidas do mundo. Narra a história de um frei que dormiu demais e não tocou os sinos para as orações da manhã — sátira leve da vida monástica. Uma das formas mais comuns de brincar consiste no ensino do cânone, em que dois ou mais grupos de crianças começam a cantar a música em momentos diferentes, sobrepondo as vozes e criando uma harmonia.
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Kagome Kagome (Japão)
Trecho: Kagome, kagome / Kago no naka no tori wa/ Itsu itsu deyaru / Yoake no ban ni /Ushiro no shoumen dare?
Kagome Kagome (かごめかごめ) é uma canção tradicional japonesa cujo texto contém ambiguidades e jogos de palavras. 'Kagome' refere-se a um padrão de grade de um cesto de bambu. Algumas interpretações associam a imagem de um pássaro na gaiola a ideias de aprisionamento, renascimento ou morte. Na brincadeira de roda e adivinhação, uma criança se ajoelha ou senta no centro, com os olhos vendados. Enquanto isso, as outras cantam e caminham ao redor. No último verso — “Ushiro no shoumen dare?” (“Quem está atrás de você?”), o grupo para e a criança deve adivinhar quem está ali. Combina ritmo, suspense e interação social.
