
Quem é essa criança que chega ao mundo?


Entre o corpo que chega ao mundo e o olhar de quem o recebe, começa uma história
que vai muito além do nascimento.
Costumamos associar o início da vida humana ao momento da fecundação — ou, para muitos pais, ao instante em que descobrem a gravidez. Compreensível. É também nesse instante que a biologia passa a acompanhar o que começa a tomar forma. Mas será que a história do ser que viverá naquele corpo começa ali?
A criação do universo, a origem do espírito e a possibilidade da existência de realidades além daquela que nossos sentidos alcançam continuam a ser temas de debates, livros e produções audiovisuais. Talvez porque ainda não se tenha chegado a uma explicação concludente. Mudam as perguntas, mudam as explicações, muda o público, mas a inquietação permanece.
As novas gerações parecem estar mais abertas a essas indagações. Percebe-se uma urgência em oferecer a elas algo mais profundo, pois os adultos, de modo geral, ou não conseguem responder a muitas questões — por, de fato, não saberem — ou estão vinculados a tradições religiosas e recorrem a afirmações de caráter dogmático que já não são satisfatórias.
Não é raro que crianças e jovens se debrucem sobre questões que, durante muito tempo, foram tratadas sobretudo nos campos da filosofia e da religião: “De onde viemos?”, “Para onde vamos?”, “Por que faço parte desta família ou desta sociedade?” E existe uma pergunta que provavelmente muitos pais fazem de outra maneira: “Por que meu filho é assim?” Ou: “Por que ele é tão diferente?”
A criança não deveria ser compreendida, desde o primeiro momento, apenas como um organismo biológico que precisa de cuidados. Antes de se perguntar como manter uma criança saudável, pais mais conscientes poderiam procurar saber: quem é essa criança que nos foi confiada?
Uma pergunta que antecede o corpo
Ao longo da história, vários povos e tradições tentaram responder à pergunta sobre a origem do ser. É curioso como, em lugares distantes entre si, aparece uma imagem semelhante, que também conhecemos intimamente: a de algo que contém, em seu interior, aquilo que ainda está por nascer. O mito do ovo cósmico aparece em diferentes mitologias como uma imagem da criação.

O ovo cósmico na mitologia
Na tradição hindu, o Hiranyagarbha, frequentemente traduzido como “embrião dourado” ou “germe dourado”, figura em antigos textos védicos como princípio associado à origem do mundo; na tradição chinesa, Pangu, o ser primordial, encontrava-se inicialmente no interior de um ovo cósmico. Quando esse ovo se rompeu, céu e terra foram separados e começou a organização do cosmos; em algumas tradições órficas da Grécia antiga, um ovo cósmico aparece nas narrativas de origem, associado ao surgimento de uma divindade, frequentemente identificada como Eros ou Phanes, dependendo da versão dos relatos preservados.
Também em diferentes cosmogonias egípcias encontramos narrativas nas quais uma divindade ou o próprio princípio solar emerge de um ovo primordial, formado ou encontrado nas águas originais.
Outras culturas explicam a origem do universo de formas distintas: por meio da criação a partir do nada (creatio ex nihilo), na qual uma divindade suprema cria por sua vontade, pensamento ou palavra, como na tradição judaico-cristã; do corpo de um ser primordial sacrificado, como no mito nórdico do gigante Ymir; ou emergindo das águas — de um oceano infinito ou de um abismo — e do caos original.
Da ideia de criação à de emanação
Nesse contexto, a ideia de emanação oferece uma perspectiva diferente.
Em vez de imaginar a criação como a produção de algo que antes não existia, o conceito de emanação nos leva a compreender a realidade como manifestação ou desdobramento de uma fonte primeira. A forma imagética pode ser descrita por meio da metáfora de uma luz que se propaga a partir de uma vela ou dos raios que partem do sol, sem que, por isso, sua fonte jamais se esgote.
A ideia ganhou uma formulação filosófica particularmente importante no neoplatonismo de Plotino, no século III. Em sua filosofia, o Uno ocupa o lugar do princípio primeiro, e dele procedem níveis sucessivos da realidade, entre eles o Intelecto e a Alma. Não se trata simplesmente de uma matéria que se divide em partes, mas de uma processão (no sentido avanço e progressão) de planos da existência.
Muito antes e depois de Plotino, assim como em vertentes da filosofia grega, pensadores procuraram explicar de que maneira o invisível poderia relacionar-se com o visível. Conceitos de emanação ou desdobramento a partir de uma origem suprema também são mencionados em correntes filosóficas, místicas e religiosas.
A Cabala judaica, por exemplo, possui suas próprias concepções sobre a manifestação do divino, assim como movimentos reunidos sob o termo “gnosticismo” propõem cosmologias bastante distintas entre si. Os caminhos são diversos, mas, em determinados momentos, aproximam-se de uma mesma questão: como aquilo que consideramos origem, princípio ou realidade espiritual se relaciona com o mundo que percebemos?

Busto romano de mármore atribuído a Plotino (c. 204–270), no Museu Arqueológico de Ostia Antica, Itália.
Da origem do ser à experiência humana
Mais adiante na história, a Teosofia moderna — o movimento que se desenvolveu a partir do trabalho de Helena Blavatsky e de outros, no final do século XIX — buscou compreender a constituição humana à luz de tradições orientais.

Madame Blavatsky (1831-1891), como ficou conhecida.
Esse sistema propõe que o ser humano é estruturado a partir da distinção entre o que é permanente, eterno — a essência do ser — e o que é transitório — a personalidade.
Na base desse modelo está a Mônada, a “centelha divina” que representa a origem espiritual do ser. Ela é descrita como expressão ou raio do princípio divino universal, não possuindo forma, gênero ou individualidade humana.
Pode-se imaginá-la como um “sol” espiritual tão sutil que é incapaz de tocar diretamente a matéria densa da Terra. Necessitando, assim, de um intermediário para fazer essa ponte e experienciar o universo, ela projeta um raio de si mesma, dando origem a uma estrutura composta por duas dimensões:
1. A Tríade ou Ternário Superior
Composta por Atma, Buddhi e Manas, a Tríade representa a dimensão imortal do ser e reúne o aprendizado de múltiplas vidas. Ela corresponde às três camadas superiores da constituição setenária — o sistema de sete corpos do ser humano —, constituindo o “Eu Superior”.
O corpo manásico (Manas) refere-se à mente abstrata e atua como o grande arquivo do espírito, armazenando o registro das experiências geradas ao longo das diferentes existências. Já o corpo búdico (Buddhi) corresponde ao discernimento, sendo a sede da intuição, da compaixão e do amor incondicional. Por fim, o corpo átmico (Atma) representa a dimensão espiritual mais elevada, associada à Essência Suprema e à unidade com o Todo — ou seja, o próprio Deus no ser humano.
2. O Quaternário Inferior (A Personalidade)
Por outro lado, para viver no mundo material, o ser humano está associado a uma estrutura temporária que se dissolve a cada morte física. Esse conjunto é formado pelo corpo material, pelo duplo etérico ou princípio vital, pelas emoções (corpo astral) e pela mente inferior. É nessa dimensão que se desenvolvem os aspectos da personalidade ao longo de uma encarnação, abrangendo pensamentos, sentimentos, aspirações, receios e a maneira particular de se relacionar com o mundo.
Evidentemente, a terminologia e as classificações sofreram variações dentro da própria tradição teosófica. Portanto, não se deve tratá-las como uma descrição universal, mas sim como elementos de um determinado sistema filosófico.
Quando a pergunta chega aos dias de hoje
Ao longo desse percurso, surgem teorias espiritualistas como a apresentada por Allan Kardec — pseudônimo do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail —, em O Livro dos Espíritos, publicado em 1857. A publicação ocorreu em meio às suas investigações sobre fenômenos como as mesas girantes e as comunicações mediúnicas que, na interpretação dele, provinham de espíritos.
Tendo surgido em Paris, quase duas décadas antes da fundação da Sociedade Teosófica nos Estados Unidos, essa doutrina foi apresentada como uma nova forma de compreender a relação entre dois mundos, tratando a dimensão espiritual não simplesmente como algo sobrenatural, mas como parte da realidade a ser investigada e compreendida.

Allan Kardec (1804-1869), o codificador da doutrina espírita.
O próprio Kardec explicou que, “por sua natureza, a revelação espírita tem um duplo caráter: ela participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica”. E esclareceu que o conhecimento provém do ensinamento dos espíritos e da iniciativa providencial, mas que sua elaboração depende diretamente do trabalho humano de observação, pesquisa, livre-exame e controle — distinguindo, assim, a fé cega daquilo que chamou de “fé raciocinada”.
Com o avanço do conhecimento científico, modificou-se a maneira como o ser humano entendia a matéria. A física clássica, particularmente a mecânica newtoniana, havia construído a imagem de um universo constituído por objetos materiais cujo comportamento, em princípio, podia ser descrito e previsto segundo leis determinísticas. No início do século XX, a física quântica introduziu uma nova compreensão dos fenômenos em escala microscópica, na qual probabilidades e resultados contrariam expectativas baseadas na experiência cotidiana.
A expansão das neurociências abriu novas discussões. A consciência passou a ser investigada de maneira cada vez mais metódica a partir do cérebro, de seus circuitos, de sua atividade elétrica e química e de sua relação com a percepção, a memória, as emoções e o comportamento. Quanto mais se conhece o funcionamento cerebral, porém, novas questões se abrem sobre como uma experiência subjetiva emerge de processos físicos.
Não se trata de dizer que essas descobertas comprovaram as concepções espiritualistas, mas de reconhecer que ampliaram o campo sobre o qual o ser humano começou a perceber a realidade. A ciência passou a investigar aspectos dessas manifestações por seus próprios métodos. A filosofia continuou a interrogá-los em termos de existência e de teoria do conhecimento. E diversas correntes espiritualistas passaram a dialogar — nem sempre de maneira compatível com o saber científico estabelecido — com esse novo vocabulário.
Novas formulações para questões antigas
Em um cenário de transformação da imagem do universo, ocorre uma quebra de paradigma com o surgimento da Revelação Cósmica, um conjunto de estudos desenvolvido por Rogério de Almeida Freitas, que publicamente se apresenta com o codinome Jan Val Ellam. O conteúdo é exposto em livros, palestras, painéis e entrevistas por ele concedidas.
Partindo de O Drama Cósmico de Javé, a abordagem propõe uma revisão crítica de referências religiosas, mitológicas e filosóficas, procurando desmistificar interpretações consolidadas e oferecer uma nova leitura sobre a formação da humanidade e seu lugar no cosmos.
A Revelação Cósmica pode ser sintetizada em alguns eixos principais:
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A desconstrução do sagrado, contrapondo-se à ideia de um Deus perfeito, bondoso e absoluto como criador da realidade física e argumentando que os “deuses do passado” seriam, na verdade, inteligências biológicas não humanas (extrafísicas) que, por utilizarem tecnologias avançadas, teriam sido divinizadas pela incompreensão humana.
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A desconstrução das narrativas religiosas tradicionais, cruzando elementos do cristianismo, do espiritismo, da filosofia, da ufologia e de outras tradições, sustentando que os textos sagrados e os dogmas espirituais seriam “enredos” manipulados por essas inteligências.
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A desconstrução do ego e do orgulho humanos, vistos como obstáculos à compreensão da própria origem e condição, levando ao entendimento de que a humanidade faz parte de um processo cósmico muito maior, do qual ainda está desconectada.
E vale uma distinção: não estamos diante de uma continuação histórica de Plotino, da Teosofia ou de Kardec, nem da constituição de uma nova religião. Trata-se de uma ruptura na forma de abordar antigas questões. E uma delas retorna: quando nasce uma criança, nasce apenas um corpo?
Existe um organismo que precisa respirar, alimentar-se, crescer e ser protegido — composto de genes, células, órgãos, cérebro, um sistema imunológico e uma longa história biológica que a ciência consegue investigar. Contudo, para quem olha para uma criança como pai ou mãe, existe algo que nenhuma descrição anatômica consegue substituir. Existe, desde muito cedo, alguém que começa a revelar uma maneira própria de estar no mundo.
Pode-se estudar sua genética e observar o seu desenvolvimento; conhecer sua história familiar e o ambiente em que cresce. Ainda assim, podemos perguntar: quem é esse ser que está se manifestando neste corpo? E, nesse momento, a ideia de uma existência anterior à matéria reaparece. Não como uma conclusão da biologia. Não como algo que o DNA possa provar. Antes, apresenta-se como um dos grandes questionamentos da história humana. A intenção aqui não é desvendá-lo; reconhecer a sua existência já torna a reflexão legítima.
Quando a vida se faz física, ela precisa de cuidado
Aceitando-se, na perspectiva apresentada, que o ser não começa no corpo, a fecundação assume uma nova dimensão nessa história: ela deixa de ser o começo do ser e torna-se o momento de sua recepção terrena, embora continue sendo um acontecimento biológico fundamental, ponto de partida de uma nova trajetória.
A ciência pode ajudar a compreender a fecundação, o desenvolvimento embrionário, a genética e a formação do organismo. A filosofia pode ajudar a formular perguntas sobre a origem, o sentido e a natureza do ser. Uma não precisa destruir a outra. E talvez seja nessa fronteira que esteja um dos espaços de encontro mais fascinantes sobre a chegada de uma criança, porque, quando esse ser apresenta uma malformação ou uma enfermidade, a pergunta sobre a origem finalmente se confronta com a saúde.
Por que algumas crianças já nascem com necessidades de cuidados especiais ou adoecem com frequência, enquanto outras parecem atravessar a infância sem grandes problemas de saúde? Seria uma questão de predisposição genética, do ambiente, da alimentação, da resistência imunológica, das condições em que a família vive ou das experiências pelas quais passam? Ou será que se trata de uma combinação muito mais ampla de fatores que ainda precisa ser entendida?
As descobertas não esgotam a pergunta que, em algum momento, inquieta um pai ou uma mãe: quem é, afinal, esse ser que recebeu este corpo — e que agora depende de mim para crescer e permanecer saudável?
Antes de nos aprofundarmos em questões como essa, talvez fosse preciso perguntar: qual é a imagem que faço de uma criança? Não para substituir a biologia pela espiritualidade, nem para encontrar na espiritualidade uma explicação para aquilo que a ciência da vida, por sua própria natureza, não se propõe a responder. E sim para reconhecer que o ser humano sempre foi maior do que a descrição de seu organismo.
Cuidar da saúde de uma criança significa cuidar de alguém cuja história não começa no corpo. As condições de vida dos pais e das gerações anteriores, as circunstâncias em que essa criança chega ao mundo e tudo aquilo que, ao longo da vida, participa de sua constituição não determinam seu desenvolvimento, mas podem influenciá-lo.
E, diante de nós, não existe apenas um corpo.
Existe algo mais. Ou algo além.
Este texto é uma síntese de ideias presentes em diferentes tradições, cujo objetivo é mostrar ao leitor como a origem do ser humano vem sendo compreendida ao longo da história e o quanto a imagem que dele construímos condiciona o nosso modo de pensar sua saúde. Isso não significa, contudo, que este artigo assuma qualquer uma dessas concepções como verdade absoluta. Antes de tudo, cabe-nos conhecê-las, examiná-las criticamente e refletir sobre sua consistência. As fontes abaixo foram as principais referências para a elaboração deste percurso:
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Plotino — Enéadas.
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Helena Petrovna Blavatsky — A Doutrina Secreta.
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Allan Kardec — O Livro dos Espíritos e demais obras da Codificação Espírita.
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Jan Val Ellam — O Drama Cósmico de Javé e demais livros, palestras e vídeos publicados.

