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A anomalia social exposta pela criança birrenta no voo da Gol

Foto do escritor: Edilene Florentino Jäger
Edilene Florentino Jäger
19 de dez. de 2024
7 min de leitura

Atualizado: 22 de out.


Choro faz parte do desenvolvimento emocional e as crianças precisam aprender a tolerar a frustração, contando com o apoio e a orientação dos adultos. Foto ilustrativa.
Choro faz parte do desenvolvimento emocional e as crianças precisam aprender a tolerar a frustração, contando com o apoio e a orientação dos adultos. Foto ilustrativa.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) consagra a proteção integral dos direitos da criança e do adolescente, como sujeitos de direito com proteção e garantias específicas, dentre as quais o respeito, a dignidade e a convivência familiar e comunitária. Numa sociedade que se pretende civilizada, o documento seria suficiente para regular as relações individuais, mas, em países como o Brasil, em virtude do próprio contexto histórico, certos padrões de comportamento resistem à evolução das relações sociais.


Um desentendimento a bordo de um voo da companhia aérea Gol, que partiu do Rio de Janeiro com destino a Belo Horizonte, em 4 de dezembro de 2024, agitou as redes sociais. Em vídeo gravado por uma passageira, uma das partes envolvidas aparece sendo constrangida publicamente, diga-se de passagem, pelo fato de não ceder o assento à janela a uma criança que queria viajar naquela poltrona. O mal-entendido colocou em dúvida o comportamento de pais que estabelecem poucos limites ou regras para os filhos e de pessoas que não abrem mão de seus direitos para atender a um “dever social”.


De acordo com agentes de viagens que se pronunciaram sobre o assunto, a escolha do assento é um direito do passageiro que, ao adquirir um bilhete aéreo, tem a opção de selecionar o lugar que deseja ocupar, desde que este esteja disponível no momento da compra ou no check-in. No entanto, essa escolha pode ser alterada em algumas situações — nenhuma delas se aplica ao caso em questão. Por outro lado, passageiros entendem que a companhia deve ter postura profissional para resolver conflitos e acalmar os ânimos, oferecendo uma viagem agradável. Mas, diante do incidente, a Gol não se manifestou.

 Aline, mãe da criança envolvida. Fonte: captura de tela de video publicado na mídia.
 Aline, mãe da criança envolvida. Fonte: captura de tela de video publicado na mídia.

O caso 


Aline Rizzo, mãe de Arthur, que acabara de completar 4 anos, veio a público contar sua versão sobre o episódio, depois de assistir à exposição negativa de sua imagem e de sua família [1].

Segundo o relato, ela estaria na parte da frente da aeronave, resolvendo a situação do filho mais velho, portador de necessidades especiais, que, por lei, deveria sentar-se em outro lugar. Enquanto isso, Arthur acomodou-se em uma poltrona à janela para ficar ao lado da avó. Assim que a passageira que comprou o assento chegou e ele teve de deixar o lugar, Aline retirou o filho, que começou a fazer pirraça [2]. Ocupada em controlar o estado emocional da criança, não percebeu que a situação tomava maiores proporções.


O assento pertencia a Jennifer Castro, cuja recusa em cedê-lo à criança teria indignado outros passageiros. Uma dessas pessoas, com a câmera de um smartphone em ação, intimidou Jennifer de forma vexatória, enquanto ela mantinha uma atitude tranquila. A autora do vídeo enviou a gravação à filha, de 23 anos, que a divulgou no Shorts (vídeos curtos do YouTube). As imagens viralizaram em poucas horas, e o público solidarizou-se com Jennifer, em vez de censurá-la.


O revés 


A princípio, a mãe da criança foi apontada como irresponsável e negligente por não ensiná-la a lidar com a frustração. Depois, comentou-se que ela teria gravado o momento, mas que sua filha é quem teria compartilhado — o que desfavoreceu ainda mais a sua imagem. Aline negou essa versão, declarando, em um portal de notícias, que não gravou nem compartilhou o momento, tampouco sua filha, de 11 anos. Esta aparece no vídeo cabisbaixa, sentada ao lado de Jennifer, e, depois da repercussão do caso, estaria até com vergonha de ir para a escola.


A passageira Jennifer Castro. Fonte: captura de tela de vídeo divulgado na mídia.
A passageira Jennifer Castro. Fonte: captura de tela de vídeo divulgado na mídia.

A pessoa que constrangeu Jennifer foi identificada como Eluciana, uma advogada de Belo Horizonte [3]. Ela teria se compadecido da criança. Todavia, ao vir a público expor sua versão, sofreu pressão popular para que fosse processada judicialmente. A filha dela, Marianna, que recebeu o vídeo, disse ter tentado esconder o rosto de Jennifer antes de compartilhar a gravação, porém a tentativa não surtiu o efeito esperado [4].


Diante da reação popular, o vídeo foi retirado do ar e o perfil apagado. Jennifer, por sua vez, acabou beneficiando-se, pois ampliou consideravelmente sua rede de seguidores nas redes sociais e passou a receber convites para publicidade.


O modo como a convivência digital gera reações passionais acende um alerta sobre a nossa psicologia coletiva. Sob essa ótica, evidencia-se uma peculiaridade do povo brasileiro, classificada como “de grandes diferenças, quando comparado aos demais“: uma pesquisa divulgada pela Veja Saúde mostrou que o “estado emocional dos brasileiros está entre os piores do mundo” e é fato que esse perfil de comportamento gera impacto no desenvolvimento social e econômico do país [5]. Devido ao bombardeio de informações e à suscetibilidade a influências externas, o discernimento seria um antídoto precioso contra a eloquência persuasiva; no entanto, falta à população a capacidade de enxergar além do momento presente.


Comportamento e identidade


Outra análise sobre perfis comportamentais no Brasil, feita pela Sólides, líder nacional em Gestão de Pessoas para pequenas e médias empresas, revelou: “A maioria dos brasileiros são comunicadores natos. As características desse perfil são realmente predominantes no nosso país. O mais interessante é que a extroversão, o poder de persuasão e o carisma agora são mais do que apenas estereótipos. (...) Depois do 'Comunicador', o perfil mais presente na população brasileira é o 'Executor'. Cerca de 25,6% da população brasileira tem esse perfil como predominante. Logo depois vem o 'Planejador', com 21,5% e, por último, o 'Analista'” [6].


Darcy Ribeiro (1922 – 1997)  antropólogo e escritor brasileiro.
Darcy Ribeiro (1922 – 1997)  antropólogo e escritor brasileiro.

Darcy Ribeiro (1922-1997), antropólogo e escritor, já explicara a tendência no livro As Américas e a Civilização, definindo os “Povos-Novos como povos que se constituíram pela confluência de contingentes profundamente díspares em suas características raciais, culturais e linguísticas, como um subproduto de projetos coloniais europeus“ [7].


Na visão de Darcy, “a reunião de negros, brancos e índios acabou por formar povos profundamente diferenciados de si mesmos e de todas as outras matrizes formadoras“. Concluindo: o brasileiro seria incomparável.


O que se valida 


Em meio à projeção alcançada pelo caso, o que mais se observou foram cobranças aos adultos para que viessem a público justificar atitudes e se desculpar. Sobre o valor dessa experiência para a criança, não houve destaque. Embora, ao que tudo indica, Arthur tenha apresentado comportamento esperado para a sua idade, ele sai de cena como “birrento”, mas expondo involuntariamente a anomalia de uma sociedade.


Uma criança precisa aprender a lidar com seus sentimentos e emoções, desenvolver a linguagem, socializar-se, entender e adquirir valores e normas da vida em comum. Essa oportunidade deveria ser destacada por oferecer estímulos à criança, permitir que absorva impressões do ambiente, vivencie experiências e teste limites, recebendo cuidado e atenção. Desconsiderar a importância de se viver cada fase da vida pode trazer sérias consequências.


No episódio, várias incongruências podem ser observadas: a companhia aérea não selecionou automaticamente um assento preferencial para um jovem com deficiência — quem o acompanhava precisou reivindicar esse direito; uma pessoa graduada em Direito expõe outra publicamente, ferindo sua honra e privacidade; uma mãe tensa atua dentro de suas possibilidades e se torna alvo de execração pública; por fim, quem é verbalmente agredida opta pelo silêncio, e seu comportamento causa estardalhaço.


Esse caso poderia render muitos debates sobre tolerância, resiliência, empatia, cidadania, manipulação de informação, enfim. Depois de se assistir a uma inversão na preponderância de certos aspectos, em que o contraponto da história gera uma enxurrada de publicações e pauta os noticiários nacionais, o mais prudente é dar por encerrados os comentários.. A proposta aqui não é fazer julgamento, e sim analisar a situação, com neutralidade. Assim, acredito, podemos nos conhecer melhor, identificar características que nos deixam em situação de desvantagem em relação a outras nações e trabalhar no sentido de superá-las ou usá-las a nosso favor. Além disso, durante o processo, adquirimos maior competência para orientar as novas gerações.


Esse caso poderia render muitos debates sobre tolerância, resiliência, empatia, cidadania, manipulação de informação, enfim. Depois de se assistir a uma inversão na relevância de certos aspectos, em que a versão contrária gera uma enxurrada de publicações e pauta os noticiários nacionais, o mais prudente é dar por encerrados os comentários. A proposta aqui não é fazer julgamento, e sim analisar a situação com neutralidade. Assim, acredito, podemos nos conhecer melhor, identificar características que nos deixam em situação de desvantagem em relação a outras nações e trabalhar no sentido de superá-las ou usá-las a nosso favor. Além disso, durante o processo, adquirimos maior competência para orientar as novas gerações [8].


Referências

  1. MARTINS, Carlos. Mãe de criança que fez birra em voo da GOL por assento na janela se pronuncia. AEROIN, 6 dez. 2024. Disponível em: aeroin.net. Acesso em: 7 dez. 2024.

  2. DISPUTA PELA JANELA DO AVIÃO: mãe admite exagero do filho e reconhece ‘direito do assento‘ de passageira; entenda. O Globo, Rio de Janeiro, 6 dez. 2024. Disponível em: globo.com. Acesso em: 7 dez. 2024.

  3. MULHER que gravou passageira em avião foi candidata e denunciada pelo MPE. Metrópoles, 7 dez. 2024. Disponível em: youtube.com. Acesso em: 12 dez. 2024.

  4. FANTÁSTICO entrevista mulher que filmou Jennifer Castro dentro do avião e chora. Canal Deu Tret4, 9 dez. 2024. Disponível em: youtube.com. Acesso em: 18 dez. 2024.

  5. BEANI, Larissa. Estado emocional dos brasileiros está entre os piores do mundo. Veja SAÚDE, 19 abr. 2024. Disponível em: abril.com.br. Acesso em: 10 dez. 2024.

  6. SIQUEIRA, Sabrina. Pesquisa: os perfis comportamentais no Brasil. Sólides Blog, 11 dez. 2024. Disponível em: solides.com.br. Acesso em: 12 dez. 2024.

  7. GIAROLA, Flávio Raimundo. O povo novo brasileiro: mestiçagem e identidade no pensamento de Darcy Ribeiro. UDESC, Revista Tempo e Argumento, 2012. Disponível em: redalyc.org. Acesso em: 12 dez. 2024.

  8. DI ANGELLIS, Gilbert. Por que é tão difícil advogar no Brasil? Portal Jurídico Viver Direito, 25 nov. 2021. Disponível em: youtube.com. Acesso em: 12 dez. 2024.


1 comentário


fenahy
fenahy
28 de jun. de 2025

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Edilene Florentino Jäger

Jornalista e educadora, com atuação na primeira infância e especialização na faixa
de zero a três anos de idade. Desde 2006, integra equipes pedagógicas de instituições
de educação infantil na Alemanha.
[Sobre a autora] · [Sobre o projeto]

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