top of page
Buscar

Chupeta: ferramenta de autorregulação que acabou estigmatizada

  • Foto do escritor: Edilene Florentino Jäger
    Edilene Florentino Jäger
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

No meu trabalho como educadora, pude presenciar o quanto a chupeta ajudou centenas de crianças: no período de adaptação à creche, nos momentos de separação dos pais (aliada a outros objetos transitórios), durante o sono — tanto para adormecer quanto em casos de constipação, evitando engasgos — e até em conflitos com outras crianças, como disputas de brinquedos, acalmando-as. Observar essas situações mostrou que a chupeta, quando usada de forma adequada, pode ser uma ferramenta poderosa de autorregulação emocional. Aliás, pelo que se tem notícia, esse foi o principal objetivo de sua criação.


Desde que o farmacêutico nova-iorquino Christian W. Meinecke patenteou o modelo denominado Baby Comforter¹, entre 1900 e 1901, muita coisa mudou na forma como entendemos a infância. Transformações sociais, econômicas e culturais alteraram as rotinas familiares — e também o olhar para objetos de apego.


Vivemos conflitos de interesses em diversas áreas — e a chupeta é apenas um deles. De um lado, há uma “demonização” ferrenha do objeto, muito centrada na prevenção da confusão de bicos — quando o bebê pode ter dificuldade em aprender a sugar corretamente o seio materno após usar chupetas ou mamadeiras — e de problemas ortodônticos². Do outro, está a realidade exaustiva de pais e cuidadores. A verdade é que a chupeta é uma tecnologia, não um vilão por natureza. A questão não está no “se”, mas no “como” e no “quando” utilizá-la.


A necessidade que vai além da alimentação


Embora o aspecto comercial tenha sido importante para a disseminação do bico de borracha, sua concepção atendeu a uma necessidade prática e de segurança: a sucção primária — um reflexo inato, essencial, que surge ainda na vida intrauterina e desempenha funções vitais para o recém-nascido².

Três pilares ajudam a compreender essa relevância:


Sucção nutritiva: base da sobrevivência e da nutrição. Ao se alimentar, o bebê extrai o leite materno ou a fórmula, garantindo aporte calórico e hidratação adequados ao desenvolvimento. A sucção também estimula a liberação de ocitocina³, hormônio responsável pela ejeção do leite.


Desenvolvimento orofacial: o esforço muscular envolvido na sucção participa do crescimento da mandíbula, da maxila e das arcadas dentárias⁷.


Indicador neurológico: como reflexo primitivo, a

presença e a força da sucção são sinais importantes da maturidade e da integridade do sistema nervoso central do bebê².




Já a sucção não nutritiva — isto é, o ato de sugar sem a finalidade de obter alimento (como sugar o dedo, o seio vazio ou uma chupeta) — representa uma fonte de bem-estar emocional para o bebê. Ao funcionar como ferramenta de autorregulação, essa sucção contribui para a organização do sistema nervoso imaturo, facilitando a transição entre estados de vigília e sono e proporcionando sensação de segurança.


A American Academy of Pediatrics (AAP) aponta que o uso da chupeta durante o sono está associado à redução do risco de Síndrome da Morte Súbita do Lactente (SMSL)³⁴. Outro benefício observado é o alívio da dor e do estresse: o ato de sugar estimula a liberação de substâncias relacionadas ao bem-estar, sendo frequentemente utilizado durante vacinas e pequenos procedimentos⁵.


No caso de bebês prematuros, a sucção não nutritiva pode auxiliar na maturação da coordenação entre sucção, deglutição e respiração, favorecendo a transição para a alimentação oral². No aspecto emocional, também atende à necessidade psicológica de conforto, reproduzindo sensações associadas ao ambiente intrauterino.


Chupeta no cenário brasileiro


O Brasil é frequentemente citado como referência em políticas de incentivo ao aleitamento materno, apoiadas pelo Ministério da Saúde e pela SBP⁵⁶. Essas instituições reforçam que a introdução precoce de bicos artificiais pode estar associada ao desmame precoce, especialmente quando a amamentação ainda não está estabelecida.


No entanto, há bebês com necessidade intensa de sucção que nem sempre é plenamente suprida apenas pelo seio materno, sem que isso leve ao esgotamento da mãe. Nesses casos, a chupeta pode funcionar como apoio — tanto para a autorregulação da criança quanto para o equilíbrio da dinâmica familiar.


Chupeta no cenário mundial


Objetos destinados a acalmar bebês existem há milhares de anos. Há relatos históricos, datados de cerca de 3 mil anos, que mencionam trouxas de pano com açúcar ou mel e artefatos rígidos de osso e marfim — métodos que frequentemente apresentavam riscos de infecção ou asfixia⁸.


A proposta de Meinecke foi oferecer uma alternativa mais higiênica e segura. O diferencial de sua patente foi a introdução do escudo protetor (disco) acoplado ao bico de borracha¹, impedindo que o bebê engolisse o objeto inteiro — problema relativamente comum nas versões artesanais da época.


Apesar do aprimoramento no design, a chupeta enfrentou resistência. Parte da classe médica a criticava por possíveis riscos à saúde bucal e à higiene, além de associações morais e sociais do período, que vinculavam seu uso a descuido materno e às classes mais pobres.

A adoção em larga escala ocorreu no início do século XX, quando grandes varejistas passaram a anunciá-la em catálogos comerciais, transformando um recurso de conforto em produto amplamente consumido. Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como alternativa ao hábito de chupar o dedo.


Não se trata, portanto, da invenção da sucção como forma de consolo, mas da industrialização e padronização segura de um hábito ancestral.


Narrativas, interesses e construção do conhecimento


Quando observamos costumes que atravessam gerações, especialmente aqueles anteriores à industrialização, é preciso ter cautela para não incorporar automaticamente narrativas que os desqualificam. Nem toda crítica contemporânea se baseia apenas em conhecimento científico “consolidado”; muitas vezes, ela também se desenvolve dentro de contextos econômicos, ideológicos ou institucionais específicos. A própria ciência, diga-se, está em constante investigação — nada é definitivo; práticas e hipóteses podem ser revisitadas à medida que novas evidências surgem.


Ao longo da história, discursos foram moldados conforme os interesses predominantes de cada época. Novas tecnologias, novos mercados e novas formas de organização social frequentemente redefinem o que é — ou não — considerado adequado.


As universidades, enquanto centros de produção e difusão do conhecimento, exercem papel relevante na formação de narrativas. É inegável que são espaços fundamentais para o avanço científico; ainda assim, também operam dentro de contextos políticos e econômicos próprios de seu tempo. Questionar pressupostos não significa negá-los, e sim desenvolver um olhar crítico que permita compreender como as ideias que nos orientam são construídas.


Práticas ancestrais que atravessaram gerações frequentemente possuem fundamentos adaptativos, culturais ou funcionais que merecem análise cuidadosa, sem que sejam descartadas unicamente por não estarem alinhadas ao discurso predominante — ainda que este venha respaldado por títulos acadêmicos.


No caso da chupeta, talvez a pergunta mais honesta não seja se o hábito de usá-la deve continuar sobrevivendo, mas em quais contextos pode, de fato, cumprir sua função de cuidado — sem substituir aquilo que é insubstituível.


Recomendações importantes

Entidades como a AAP e a SBP sugerem cautela no uso rotineiro³⁵:

Amamentação: introduzir apenas após estar bem estabelecida, geralmente entre 3 e 4 semanas.

Higiene: manter limpeza adequada para reduzir risco de infecções, como candidíase oral e otites.

Oferecer nos momentos adequados: priorizar sono ou picos de estresse.

Dentição: o uso prolongado, especialmente após os 2 anos, pode contribuir para alterações na arcada dentária⁷. Embora o formato ortodôntico tente minimizar o impacto na oclusão, o uso frequente e prolongado de qualquer tipo de chupeta ainda pode causar alterações⁷.

Retirada e segurança: a remoção deve ser planejada e gradual. Médicos alertam contra “truques” como furar ou cortar a ponta, pois há risco de engasgo e asfixia².

Nomeação correta: ao falar com a criança, diga sempre “chupeta”, e não diminutivos como “pepeta”, “pepa” ou “chucha”. Isso ajuda a criança a aprender desde cedo o nome correto do objeto e sua pronúncia, fortalecendo também o desenvolvimento da linguagem.

Há consenso na área da saúde contra o uso rotineiro e indiscriminado. A chupeta não é solução universal nem inimiga; é uma ferramenta cujo valor depende do modo, do contexto e de uma decisão informada e individualizada.



Referências

¹ UNITED STATES PATENT AND TRADEMARK OFFICE. Baby Comforter. Patente concedida a Christian W. Meinecke, 1901. Disponível em: https://patents.google.com. Acesso em: 15 fev. 2026.


 ² SEXTON, S.; NATALE, R. Risks and benefits of pacifiers. American Family Physician, v. 79, n. 8, p. 681–685, 2009.


 ³ AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Sleep-Related Infant Deaths: Updated 2022 Recommendations for Reducing Infant Deaths in the Sleep Environment. Pediatrics, 2022.


 ⁴ HAUCK, F. R. et al. Do pacifiers reduce the risk of sudden infant death syndrome? A meta-analysis. Pediatrics, v. 116, n. 5, 2005.


 ⁵ SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de Orientação: Aleitamento Materno. Rio de Janeiro: SBP.


 ⁶ BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar. Brasília: Ministério da Saúde.


 ⁷ LOBO, P. L. D. et al. Associação entre o uso de chupeta e alterações orofaciais. Revista de Odontologia da UNESP, 2016.


 ⁸ CUNNINGHAM, H. Children and Childhood in Western Society Since 1500. 2. ed. London: Routledge, 2005.


 
 
 

Comentários


logo-png.png
  • Facebook
  • Instagram
  • Pinterest
  • Twitter

Edilene Florentino Jäger

Jornalista e educadora, com especialização no desenvolvimento infantil de zero a três anos de idade. Desde 2006 integrando equipes pedagógicas de instituições de educação infantil, na Alemanha.

Assine nossa newsletter

Email enviado!

© 2025  Sua Criança Consciente - Site By Remember Brasil

bottom of page