Vida, morte e fantasia: como conversar com crianças sobre a perda
- Edilene Florentino Jäger
- 2 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: há 5 horas

Max e Jule não encontram o avô em nenhum lugar do apartamento, que está vazio: a cama, a poltrona, o banheiro, a despensa, a geladeira… tudo. “E mamãe não quer dizer nada. E papai não sabe de nada.”
Eles pensam que o avô foi embora para outro país e precisa trabalhar, mas esqueceu os óculos. Max e Jule, com Wiff, o cachorro atento, decidem resgatar o avô. Levam bolo de gengibre, óculos e bilhetes de loteria no trenó. Viajam por muito tempo, atravessando o campo de futebol escuro e planícies áridas onde ninguém moraria ou andaria de bicicleta.
O avô se perdeu na floresta, provavelmente porque não podia ver, e o cachorro encontra suas pegadas em zigue-zague. De longe, ouvem os pais chamando, mas, depois de uma noite fria, chegam a um mundo colorido e ensolarado e continuam sua busca.
Atrás do rio escuro, onde os pássaros negros gritam, encontram, no meio do nada vasto e gelado, a aldeia de Ugri-La-Brek. Lá, veem as pantufas do avô e o encontram sentado na janela da menor casinha. Finalmente, diante dele, perguntam: “É você, vô?” Ouvem que ele está confortável, percebem que não precisa mais de nada e entendem que ele se foi, não por causa de Max e Jule, “sempre subirem e descerem a escada batendo os pés”. Com isso, voltam tranquilos.
Max e Jule agora sabem a verdade, mas não dizem nada. No mágico conhecimento da fantasia infantil, vida e morte coexistem em harmonia¹.
(Do original sueco Die Reise nach Ugri-La-Brek — em português, A viagem para Ugri-La-Brek — de Thomas Tidholm e Anna-Clara Tidholm. Recebeu, em 1992, o Deutscher Jugendliteraturpreis, prêmio alemão de literatura infantil¹.)
Diálogo necessário na infância

A morte faz parte da nossa existência. Como diz a expressão popular, “a morte é a única certeza que se tem na vida”; portanto, o diálogo e a reflexão são fundamentais para que possamos ter uma relação saudável com o tema. Em algumas sociedades, o assunto ainda é tabu — uma resistência alimentada pelo desconhecimento do que virá, pelo medo da dor do luto e pela consciência de nossa própria finitude.
No Brasil, com o aumento da criminalidade, operações policiais recentes, como a ocorrida no Rio de Janeiro, e a instabilidade política e jurídica, a morte se torna parte do dia a dia. E muitas crianças não conseguem ser afastadas do noticiário, sendo expostas a um tema que, embora presente na vida, ainda é difícil de compreender plenamente.
Por isso, existem algumas regras básicas para falar sobre a morte com crianças²:
Apenas responder às questões que a criança fizer
Atender às perguntas de imediato e com sinceridade
Não confrontar a criança
Tranquilizá-la, assegurando que continuará a ter um lugar seguro na família
Oferecer afeto e suporte contínuo
Conversar sobre a morte exige sensibilidade, paciência e presença. Com cuidado, ajuda a criança a entender, conviver e integrar a perda à vida, sem medo ou trauma desnecessário.
Como as crianças vivem o luto
A morte faz parte da vida — mas como as crianças a compreendem?

Embora o tema ainda seja difícil para muitos adultos, as crianças têm uma força natural para lidar com o luto. Elas costumam encarar a morte com curiosidade e sinceridade, sem os tabus que os adultos carregam.
Mesmo os bebês e as crianças pequenas sentem e reagem à perda. O modo como vivem o luto, porém, muda conforme a idade²:
Até 5 anos: a morte como uma viagem
Nessa fase, a criança ainda não entende bem o tempo nem a ideia de “para sempre”. A morte pode parecer apenas uma viagem, algo temporário. Elas fazem perguntas, observam o comportamento dos adultos e sentem profundamente o clima emocional ao redor. Por isso, o acolhimento, o toque e a escuta valem mais do que explicações longas.
5 a 8 anos: começando a entender
Entre cinco e oito anos, as crianças começam a compreender que a separação é definitiva. Percebem que o corpo deixa de existir e que a morte é algo real. Nessa fase, podem surgir medos e fantasias — como pensar que a morte é um castigo por algo errado ou dar “forma” a ela em figuras como fantasmas. Também podem sentir medo de perder outras pessoas queridas. Conversas sinceras e carinhosas ajudam a transformar o medo em compreensão.
A partir de 8 anos: um olhar mais maduro
Por volta dos oito anos, as crianças passam a entender que a morte é irreversível. Elas desenvolvem uma visão mais racional e começam a lidar com o tema de forma semelhante aos adultos — embora superem com mais facilidade, pois mantêm uma forte ligação com a vida e um grande desejo de viver.
A partir de 12 anos: emoções em tempestade
Com o início da puberdade, surgem intensas oscilações de humor e reflexões sobre a vida — e, inevitavelmente, também sobre a morte.
Fatores que tornam o momento ainda mais delicado²:

Recolhimento e necessidade de privacidade — a busca por identidade pode levar o adolescente a se isolar e passar mais tempo sozinho. Meninas, em especial, são mais vulneráveis. É importante manter o diálogo e o contato afetivo para ajudá-las a atravessar esse período.
Distanciamento da família e sentimentos de culpa — questionamentos sobre normas, regras ou perdas de parentes podem gerar culpa ou frustração; o apoio e a escuta ajudam a compreender e acolher essas emoções.
Pressão social — a necessidade de aceitação no grupo pode levar os meninos a não demonstrar tristeza, por medo de parecerem “fracos”. Mostrar que expressar emoções é saudável e que compartilhar a dor faz parte do crescimento é fundamental.
Busca de sentido e intensidade emocional — nesta fase, dúvidas sobre a vida e a morte são comuns, e enfrentar a perda de um ente querido pode gerar um verdadeiro caos emocional. O acompanhamento atento e a presença de adultos confiáveis, contudo, auxiliam a lidar com sentimentos complexos (casos mais extremos, como depressão profunda ou pensamentos suicidas, são menos frequentes e exigem atenção profissional).

Em qualquer idade, presença é o que conforta. Cada criança vive o luto à sua maneira — com perguntas, silêncios, lágrimas ou brincadeiras. O mais importante é acolher com paciência, responder com honestidade e permitir que ela sinta e manifeste suas emoções².
Falar sobre a morte não interfere na magia da infância, nem significa dizer que o momento não seja apropriado; pelo contrário, mostra que o amor continua mesmo depois da perda.
Como acompanhar as crianças durante o luto
Não evitar perguntas — tentar responder²
“Por que a vovó morreu?”
Por trás das perguntas das crianças sobre a morte está, muitas vezes, a dor e o sentimento de abandono. Mais do que respostas longas, a criança precisa sentir-se acolhida. Nesse sentido, a resposta para a pergunta “Por que… morreu?” pode ser: “Eu sei que você está triste. Eu também estou. Mas fico feliz por ter você comigo.”
Em muitos casos, um abraço já transmite a mensagem.
Ser sincero
“Onde está a vovó agora?”
Dizer “A vovó se foi” às vezes gera mal-entendido, pois a criança pode interpretar literalmente e pensar que ela ainda voltará. Por isso, o adulto pode complementar, mostrando a realidade de forma segura:
“Mas ela não volta. Colocamos o corpo dela no túmulo e esperamos que agora esteja com Deus (ou em outra dimensão).”
Ajudar a evitar que o medo se instale
“Como é quando se está morto?”
Podemos dizer algo como: “Eu acredito que, quando alguém morre, não sente mais dor, que está num lugar talvez mais iluminado, junto de seus antepassados ou guardiões."
Admitir quando não sabemos
Não é preciso dizer em que você acredita, tampouco negar nada. Também não é necessário ter todas as respostas. É válido dizer: “Eu não sei. Mas espero que seja assim…”
“Gostaria de perguntar a alguém que saiba mais sobre isso.”
“Vou pensar sobre isso e depois conversamos novamente.”
Praticar rituais de homenagem
Rituais ajudam a elaborar a perda e manter viva a memória de quem partiu. Podem ser simples, mas cheios de significado, tais como:
Ir ao túmulo
Acender uma vela
Criar um “cantinho da lembrança”
Escrever uma carta
Levar flores ao túmulo ou ao local do acidente
Visitar lugares importantes para quem se foi
Este texto foi traduzido e adaptado por Edilene Florentino Jäger especialmente para o site Sua Criança Consciente, com o intuito de oferecer uma reflexão sensível sobre como as crianças vivem o luto. Baseado em material pedagógico alemão, de autoria não identificada. © 2025 Sua Criança Consciente
As fases do luto
Falar sobre a morte com crianças é um desafio que pais e educadores enfrentam em algum momento. Antes, porém é preciso compreender o processo do luto. Isso ajuda o educador a reconhecer como a criança vivencia a perda e a oferecer apoio emocional adequado, respeitando o tempo, a linguagem e a forma de cada uma expressar sua dor.
A seguir, o Ciclo do Luto desenvolvido por Petra Hugo (TrauerWege e.V.), representado em forma de espiral (imagem acima). Ele pode servir como referência para entender como crianças e adultos atravessam a experiência da perda.
Fase da Negação (Compreender a morte como realidade)
Ao receber a notícia é comum que a mente recuse a realidade da perda. A pessoa, especialmente a criança, pode parecer indiferente, confusa ou acreditar que a pessoa falecida vai voltar. Essa reação funciona como proteção diante da dor intensa.
Fase das Emoções Emergentes (Vivenciar e expressar a dor do luto)
É um momento em que sentimentos intensos vêm à tona e precisam ser aceitos — seja por meio de palavras, desenhos, brincadeiras ou silêncio. A função do educador é acolher essas expressões com empatia e paciência, sem forçar o esquecimento.
Fase da Busca e da Separação (Recordação e despedida)
A criança pode procurar a pessoa perdida em lembranças, sonhos ou perguntas. Aos poucos, vai aprendendo a se despedir e a viver em um mundo em que a pessoa não está mais fisicamente presente. Educadores podem ajudar, oferecendo espaços de memória — conversas, atividades artísticas, leituras — que permitam elaborar essa separação de forma saudável.
Fase do Novo Relacionamento Consigo Mesmo e com o Mundo (Caminho de volta à vida)
Com o tempo, a dor se transforma. A lembrança permanece, mas começa a coexistir com o desejo de seguir vivendo, abrindo-se a novos vínculos e experiências. Assim, o luto pode se tornar um processo de crescimento e renovação emocional, não de esquecimento.
Um Caminho em Espiral, Não em Linha Reta
O luto não segue um caminho linear. Ele se desenvolve em espiral, com idas e vindas entre as fases. Os sentimentos podem reaparecer mesmo depois de longos períodos de calma, especialmente em datas significativas ou mudanças importantes na vida da criança. Por isso, o “caminho do luto” é mais do que uma sequência de etapas: é um movimento contínuo que ajuda o enlutado a integrar a perda como parte de sua história e a reconstruir seu sentido de vida. Acompanhar esse processo com amor é uma das formas mais humanas de educar. Referências ¹ TIDHOLM, Thomas; TIDHOLM, Anna-Clara. Die Reise nach Ugri-La-Brek (A viagem para Ugri-La-Brek). Beltz & Gelberg, 1992. Recebeu o Deutscher Jugendliteraturpreis, prêmio alemão de literatura infantil. ² Baseado em recomendações pedagógicas do Brasil e práticas de luto infantil. Material traduzido e adaptado por Edilene Florentino Jäger para Sua Criança Consciente, 2025.



